A Renúncia do Papa e os Evangélicos do Brasil

Impactos reflexivos da renúncia do Papa Bento XVI nas denominações evangélicas históricas contemporâneas do Brasil

Aos 85 anos de idade, 7 anos após assumir, o Papa Bento XVI renuncia à liderança da Igreja Católica, obrigando-a a mergulhar numa experiência que só encontra precedente há mais de 500 anos.

A pergunta presente na mídia é: Por que o Papa renunciou? Problemas de saúde? Idade avançada? Crise espiritual? Problemas políticos na estrutura eclesiástica? Disse Bento XVI que renunciou “para o bem da igreja”, ou seja, o fez para provocar o bem, para possibilitar o bem.

A coisa parece pender para a vertente da crise política no Vaticano. A estrutura eclesiástica parece estar ocupando mais as horas do Papa e consumindo mais sua energia do que o cuidado com o rebanho. Perdida no emaranhado das brigas e jogos de poder em Roma, a igreja racha, colocando de um lado os interessados nas pessoas, em sua fé e vida e, de outro, os obstinados pelo poder, com os olhos na hierarquia eclesial.

O distanciamento das pessoas tem sua consequência agravada com o vislubrar da perda da nova geração; milhões de adolescentes e jovens católicos no mundo que, carentes de pastoreio, cada vez mais decepcionados e menos assistidos, vagam em busca de refúgio. Ou Roma muda, se moderniza e se despolui da fumaça escura do poder, da riqueza e da fama ou assiste ao definhar gradativo, moroso, mas cadenciado e ascendente, de sua imagem e de sua influência na história. Isso, sem entrar nas questões de natureza teológica, que já machucam Roma faz tempo.

Diante do perigo iminente, a renúncia papal soa, por um lado, negociada e orquestrada para dar lugar a uma mudança de rumo urgente e necessária. Mas, por outro lado, bradada por um visionário solitário que, não encontrando apoio e suporte para implementar as mudanças que entende necessárias, grita, através do gesto extremo da renúncia, a necessidade premente de mudança na igreja, sob pena de dor angustiante próxima.

Seja como for, a renúncia de Bento XVI obriga a liderança da Igreja a refletir sobre os seus próximos 20 ou 30 anos, que caminhos precisa trilhar e que transformações políticas estruturais e missionais precisa sofrer, para então discernir quem precisa escolher para ocupar o trono da igreja romana.

Assim, renunciando e saindo de cena, Bento XVI pode entrar para a história como o Papa que mais contribuiu para o progresso e o crescimento da igreja católica, posto ter provocado com sua saída as reflexões que, talvez, estejam encontrando resistências terríveis para ensejar enquanto ocupa o trono papal. Normalmente, em qualquer cenário, um líder consegue, renunciando ao poder, o que nunca conseguiria apegando-se a ele.

Sem dúvida que a igreja romana vai levar um tempo para identificar, discernir e interpretar todos os impactos que a renúncia de Bento XVI já provoca e ainda provocará. Mas, e quanto a igreja evangélica histórica, especialmente no Brasil, sofrerá algum impacto com esta decisão do Papa?

Algumas reflexões emergem, a partir da análise do que a igreja de Roma enfrenta, no que diz respeito à igreja evangélica histórica no Brasil. Construo a argumentação a partir de algumas relações facilmente verificáveis nos contextos denominacionais: a relação da militância política com a militância pastoral; a relação da sedução e busca pelo poder denominacional, com a liderança de amor e serviço; a relação das assembleias e reuniões ilusórias e irrelevantes com a vida da igreja local, real e relevante; por fim, a relação do foco no agora liderado pelo ontem, com o do amanhã que precisa ser liderado pelo agora.

Iniciemos pela relação da militância política com a militância pastoral. Onde a igreja acontece, nos plenários das assembleias ou nas casas das pessoas, nas ruas por onde andam e nas mesas onde comem? A igreja romana cresceu tanto que a militância política tornou-se a igreja de muitos.

Corremos o mesmo risco como denominações evangélicas históricas. A igreja de muitos, hoje, já não é a vida das pessoas, mas sim a militância política. Quando a militância política empolga mais que a pastoral, é sinal de que precisamos parar para realinhar a nossa praxis com o Evangelho.

Olhemos, agora, a relação da sedução e a busca pelo poder denominacional com a liderança de amor e serviço. Ela relaciona-se com a anterior. Ser reconhecido como líder em uma denominação evangélica satisfaz a sede de poder e afaga o fascínio por ele, o que só se alcança através da militância política. O poder papal, ou poder de Roma, tornou-se mais convidativo do que as lágrimas e as feridas do rebanho.

Sendo assim, um cargo na estrutura de uma denominação é mais importante do que a reputação de um irmão. O cargo deixa de ser uma oportunidade para servir em amor e passa a ser uma chance para se projetar, para se lançar como líder.

Tal realidade reflete-se também no contexto da igreja local, onde o serviço de amor voluntário vai se tornando escasso, dando lugar ao desejo de ser remunerado, retribuído ou recompensado. E tudo isso adultera as relações de serviço e de abnegação que devem marcar a igreja.

Quando uma igreja não acompanha as mudança da história, ficando na sua retaguarda, deixa de atender as demandas do seu tempo. E quando isso acontece, mudanças significativas precisam ser empreendidas para a recuperação do tempo perdido.

Como vemos, a renúncia de Bento XVI tem impactos que reverberam para além do muros do Vaticano; chegando mesmo a repercutir na trajetória das denominações históricas ao redor do mundo e, em particular, no Brasil.

Que a igreja evangélica histórica contemporânea do Brasil, uma vez impactada pelos fatos que acontecem ao seu redor, avalie-se, transforme-se, repagine-se; evitando assim a renúncia, não de um posto ou posição, mas de uma missão:“Mas vocês são a raça escolhida, os sacerdotes do Rei, a nação completamente dedicada a Deus, o povo que pertence a ele. Vocês foram escolhidos para anunciar os atos poderosos de Deus, que os chamou da escuridão para a sua maravilhosa luz”(1Pedro 2.9 – NTLH)

>> LÉCIO DORNAS é pastor da Primeira Igreja Batista de Orlando e Diretor do Departamento Brasileiro da American Bible Society. / LDornas@americanbible.org.

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