Egito enfrenta choque de realidade

As recentes revoltas refletem a incapacidade do presidente de dialogar com a oposição. Apesar da falta de sintonia com os militares, Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, precisará negociar para permanecer no poder

A ascendência da Irmandade Muçulmana no cenário político do Egito é incontestável. O grupo sempre foi o mais organizado do país e manteve uma grande penetração na sociedade egípicia, mesmo nos 29 anos de perseguição promovida pelo ex-ditador Hosni Mubarak. Deposto o regime, há dois anos, a Irmandade conseguiu o que se esperava: a maioria no Parlamento, a Presidência e uma nova Constituição baseada em seus valores. Mas o presidente, Mohamed Morsi, enfrenta uma revolta popular semelhante à dos dias turbulentos que antecederam a queda de Mubarak. O que deu errado? “A Irmandade se considerou toda-poderosa após as vitórias na eleição e no referendo. Não acreditou que a população voltasse a protestar”, afirma o americano Eric Trager, especialista em Egito do Washington Institute. “Parte da população perdeu a confiança no Estado. O cenário polarizado se dividiu ainda mais."

Há um constante estado de conflito entre o governo e a população. A nova onda de violência deixou mais de 60 mortos e mil feridos em confrontos com a polícia. A gravidade da situação levou Morsi a interromper uma rápida visita à Europa (Alemanha e França) e voltar ao Cairo. Os protestos começaram no dia 23, em Port Said, após a condenação de 21 pessoas acusadas de envolvimento em um confronto entre torcedores do time local Al-Masry e do Al-Ahly, do Cairo, em fevereiro de 2012. Na ocasião, 74 pessoas morreram. Moradores de Port Said dizem que policiais responsáveis pela segurança da partida não foram punidos, e os torcedores condenados serviram de bode expiatório. 

A resposta do governo veio no antigo estilo Mubarak e só piorou a situação. Tropas foram enviadas para conter os protestos. Morsi decretou estado de emergência e toque de recolher em três cidades (Port Said, Suez e Ismailia). Assim que foi eleito, Morsi prometera que abandonaria o estado de emergência, uma medida adotada ininterruptamente pelo regime de Mubarak. As manifestações se espalharam por cidades maiores, como o Cairo e Alexandria. Seculares, cristãos, liberais e outros opositores de Morsi relembraram sua tentativa de ampliar os poderes presidenciais por decreto, em novembro. Eles o acusam de trair os ideais da Primavera Árabe e veem a nova Constituição, aprovada por meio de um referendo em dezembro, como uma peça pró-islâmica.

Além de não conseguir dialogar com a oposição, Morsi sofre com a falta de apoio dos militares, que continuam com grande influência na política egípcia. O chefe das Forças Armadas e ministro da Defesa do Egito, general Abdul Fattah al-Sisi, afirmou na página do Exército no Facebook que o conflito poderia inviabilizar o governo. “A continuação do confronto entre as diferentes forças políticas e suas diferenças em relação ao comando do país podem levar ao colapso do Estado e ameaçam gerações futuras”, escreveu al-Sisi. Sisi defendeu o papel das Forças Armadas no controle do país como "o bloco coeso e sólido" em que o Estado repousa.

Os problemas políticos se refletem na economia. Nos últimos anos do regime de Mubarak, a taxa de crescimento econômico atingiu mais de 7% ao ano. Em 2012 e 2011, cresceu apenas 2%. O desemprego está perto de 12%, e o governo tenta há vários meses obter um empréstimo de US$ 4,8 bilhões do Fundo Monetário Internacional (FMI). A incapacidade de promover as reformas políticas e econômicas exigidas pelo Fundo deixa o empréstimo cada vez mais distante. 

Eric Trager questiona a habilidade política de Morsi. “Em sete meses no poder, ele foi incapaz de entregar o que prometeu: uma aliança nacional para forjar um consenso que abrisse caminho para reformas e reforçasse a confiança nas instituições”, afirma. “Morsi não consegue fazer alianças com setores seculares da sociedade egípcia porque isso minaria ainda mais sua situação entre os religiosos da Irmandade Muçulmana”. Com grande atraso, o presidente percebeu que terá de negociar com a oposição para não ser engolfado pela violência nas ruas ou, pior, correr o risco de um golpe militar. Convidou 11 forças políticas do país – entre eles islâmicos, liberais e esquerdistas – para um diálogo na tentativa de “restaurar a unidade nacional”. A Frente Nacional de Salvação, um grupo que reúne parte da fragmentada oposição egípcia sob a liderança do ex-diplomata Mohamed ElBaradei, não aceitou dialogar. O xeque Ahmed al-Tayyeb, líder religioso e chefe da mesquita e da universidade Al-Azhar, teve que mediar o processo e conseguiu reunir os dois lados. ElBaradei comemorou o encontro. “Saímos da reunião com um certo otimismo. Cada um de nós fará o possível, com boa vontade, para construir novamente a confiança entre as facções na nação egípcia”, afirmou. Os participantes, incluindo a Irmandade Muçulmana, assinaram um documento concordando em estabelecer um comitê de partidos. Foi uma medida auspiciosa, mas os políticos egípcios precisam passar logo do diálogo para a ação – e salvar a frágil democracia do Egito.  

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