Republicanos enfrentam desafio demográfico nos Estados Unidos

O conservadorismo fervoroso que pauta a escolha do candidato republicano à Casa Branca tem nas profundas mudanças demográficas experimentadas pelos Estados Unidos nas últimas duas décadas um de seus principais motores. Com uma sociedade etnicamente mais diversificada, sob forte influência da imigração latina, da chegada à vida adulta da chamada geração do milênio (nascidos entre 1978 e 2000) e do comportamento mais liberal das mulheres e dos jovens brancos bem-educados, o Partido Republicano está progressivamente deixando de contar com sua tradicional base – o "americano real", ou a América branca, que está encolhendo e envelhecendo. Isso está tornando a agenda do partido obsoleta – em termos de valores – para as novas demandas sociais e econômicas que surgem. Para analistas, as eleições de 2012 são provavelmente as últimas que os republicanos podem disputar com chance de vitória advogando sua histórica posição conservadora e impondo sua concepção de Estado e seus valores econômicos e sociais.

Em uma década, as atuais minorias raciais nos EUA – hispânicos, negros e asiáticos – aumentaram sua participação na população de 28,4%em 2000 para 33,7% em 2010. Pelas projeções do demógrafo Ruy Teixeira, um dos principais estudiosos sobre o impacto das transformações demográficas sobre a política americana, neste ritmo, em 2023 a maioria absoluta dos americanos com menos de 18 anos já não será branca, em 2042 o país estará dividido em dois grupos equivalentes, e em 2050 as minorias já terão se convertido na maioria (54%).

Legenda foca no eleitorado branco

Os especialistas creditam ao fato de o eleitorado ainda ser predominante (mais de 60%) branco e acima de 45 anos, também mais disposto a comparecer às urnas (num país no qual o voto não é obrigatório), a campanha de "tudo ou nada" que o Partido Republicano pôs nas ruas nas primárias. Foi reforçado o discurso contra aborto, Estado de bem-estar social, uso de contraceptivos, interferência estatal no ambiente econômico e imigração, valores profundos da "velha América". A lenta recuperação econômica dos EUA – que tende a tornar a sociedade mais resistente à plataforma democrata de avançar em políticas de redistribuição de renda em favor de mais cortes de impostos – também compõe o cálculo político.

– Os republicanos estão abraçando o medo da classe média branca de perder a maioria e de não mais liderar a América. Mas, no longo prazo, você tem que ser capaz de dialogar com a América multicultural para ganhar eleições presidenciais. Os republicanos estão no lado errado da História neste momento e terão de se adaptar. Porque esta é a América real – diz o cientista político Clyde Wilcox, da Universidade Georgetown.

A estratégia republicana em 2012, porém, é mobilizar o eleitorado branco, especialmente da classe trabalhadora (39% dos votantes em 2008), que orienta sua escolha política por uma ideologia fortemente influenciada pela ideia de liberdade econômica e individual e pela religião. Isso propicia o que os cientistas políticos chamam de guerra cultural. Ela é pautada, por exemplo, pelo discurso que opõe makers (os que produzem) e takers (os que usufruem) e vem orientando a oposição ferrenha que o partido faz à Presidência do democrata Barack Obama.

A guerra cultural está por trás do surgimento do movimento ultraconservador Tea Party (vitorioso nas eleições legislativas de 2010), da obstrução aos trabalhos do Congresso – que impôs em 2011 uma longa e prejudicial batalha sobre cortes, incentivos e o teto para o déficit público no Orçamento – e da proeminência de vários pré-candidatos republicanos à Presidência, como Michelle Bachmann, Rick Perry e o mais bem-sucedido deles, Rick Santorum. Sustenta, ainda, a oposição à nova lei de saúde, chamada de Obamacare, frequentemente retratada pelos republicanos como uma iniciativa socialista dos democratas, com o objetivo de construir uma base de cidadãos dependentes de políticas governamentais. Isso porque a legislação obriga a contratação de seguro de saúde, impede a restrição de tratamento de doenças preexistentes, permite que filhos sejam dependentes até os 26 anos e amplia o escopo e os subsídios aos programas para cobertura de idosos e mais pobres.

Para os analistas, o Partido Republicano terá de se mover ao centro em algum momento, ainda que vença estas eleições e consiga postergar o confronto. Se perder, o processo será acelerado. Hispânicos, negros e asiáticos foram 26% do eleitorado em 2008, deverão ser cerca de 30% este ano e, em 2020, mantido o ritmo atual de comparecimento às urnas, serão mais de um terço. Sob outra ótica, a geração do milênio deverá responder por 29% do eleitorado este ano, 36% em 2016 e 39% em 2020.

Nova configuração ajudou Obama

Um dos principais demógrafos do país, William Frey, da Brookings Institution, explica:

– Os republicanos estão jogando com a demografia do passado, porque os brancos americanos, especialmente os mais velhos, votam mais. Mas esta não é uma fórmula para o sucesso no longo prazo. Com a mudança demográfica vêm novas demandas, uma nova agenda. As atuais minorias e os mais jovens se preocupam com outros assuntos, como moradia que se paga, custos de educação, conseguir emprego, tratamento médico, desigualdade. Não se preocupam com o que se chama de tradicionais valores da família. Para quem não atende a este chamado, é talvez a última chance de ganhar a Presidência e ter um impacto de longo prazo na política americana.

A mudança demográfica já esteve por trás da eleição de Obama em 2008, e desde então continua favorecendo os democratas, que têm mais chances de formar uma coalizão ampla. A minoria, segundo estudo de Ruy Teixeira, deu 80% de seus votos para Obama em 2008 – um crescimento expressivo sobre os 71% obtidos pelo democrata John Kerry quatro anos antes. Obama também venceu entre a geração do milênio (66% dos votos) e as mulheres (70% das solteiras e 60% daquelas com nível superior votaram no democrata).

A nova dinâmica racial está inclusive redesenhando o próprio mapa eleitoral americano, afirma William Frey. Como as minorias já são maioria em 22 das 100 maiores regiões metropolitanas dos EUA, onde o crescimento populacional está concentrado, há hoje pelo menos 10 estados sem inclinação partidária explícita onde a presença das minorias está definindo eleições – por exemplo, Nevada, Novo México, Idaho, Flórida, Colorado, Utah, Wyoming – ou pelo menos corroendo a tradição republicana, caso do Arizona. Isso é significativo na estratégia dos partidos numa eleição decidida por colégio eleitoral e não no voto individual.

– Os latinos, sobretudo, são hoje um grande grupo capaz de definir uma eleição – concorda Clyde Wilcox.

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