Há 70 anos partia da França o primeiro trem para Auschwitz, com judeus deportados

Por Pierre-Marie Giraud

Há 70 anos, no dia 27 de março de 1942, partia do norte da França o primeiro "trem especial" com 1.112 judeus destinados ao campo de extermínio de Auschwitz, iniciando a deportação de 76.000 homens, mulheres e crianças residentes na França.

Duas cerimônias estavam programadas para esta terça-feira: a primeira, pela manhã em Drancy, na periferia de Paris, de onde partiram 67 dos 79 trens enviados aos campos de concentração; e a segunda, à tarde, em Compiègne, de onde saiu o primeiro comboio, há 70 anos. Dos 1.112 homens que iam nele, apenas 19 sobreviveram.

O documentário "Primer convoy" (1992) de Pierre-Oscar Lévy, no qual 12 sobreviventes relatam sua detenção e o internamento em Compiègne ou em Drancy, sua viagem de três dias e três noites até Auschwitz, e como sobreviveram, será exibido às sete da tarde no Memorial da ‘Shoah’, Holocausto, em Paris.

No dia 12 de dezembro de 1941, 689 judeus, todos franceses, provenientes em maioria de famílias com posses, foram detidos em suas casas de Paris pela Feldgendarmerie e reunidos em dependências militares da capital.

A eles se somaram 54 judeus estrangeiros detidos nas ruas. Depois foram todos enviados de trem a Compiègne, de onde caminharam até o campo de Royallieu, perto desta cidade. De lá seriam deportados a Auschwitz com mais 300 judeus "selecionados" em Drancy.

Entre esses primeiros deportados estava Henri Lang, de 46 anos, saído da prestigiosa Escola Politécnica, como oficial de artilharia durante a Primeira Guerra Mundial, cavaleiro da Legião de Honra e encarregado da eletrificação da linha férrea Paris-Lyon.

No livro "Henri Lang, 1895-1942, um diretor da SNCF morto em Auschwitz", publicado no dia 10 de março, a autora Nathalie Bibas traça o percurso deste brilhante engenheiro que trabalhou para as ferrovias francesas.

Também descreve os mecanismos alemães e do regime colaboracionista de Vichy que permitiram a deportação de judeus da França.

Já no dia 27 de setembro de 1940, um dispositivo alemão obrigava os judeus residentes na zona ocupada a passarem por um censo, a cargo da polícia francesa. No dia 3 de outubro, Vichy promulgav um "estatuto dos judeus" inspirado nas leis racistas da Alemanha, proibindo seu acesso à função pública e às profissões liberais.

Quinze dias mais tarde, outra decisão alemã confiscava as empresas de judeus na zona ocupada. Em março de 1941, Vichy criava o Comissariado Geral para as questões judaicas, seguido, em julho, de decretos que excluíam os judeus das profissões comerciais.

Paralelamente, começaram as primeiras caçadas, com a detenção de 3.700 judeus estrangeiros, no dia 14 de maio de 1941, em Paris. No final de agosto desse ano, 4.200 homens, entre eles 1.500 judeus franceses, foram detidos e enviados a Drancy.

A caçada de 12 de dezembro de 1941 se inscreveu oficialmente numa série de medidas de represália alemãs para ter "reféns" em suas mãos, depois dos primeiros atentados contra o exército nazista em Paris.

No dia 20 de janeiro de 1942, a conferência de Wannse, perto de Berlim, fixava as modalidades da "solução final". Em 26 de fevereiro, Theodor Dannecker, chefe dos serviços de Questões Judaicas da Gestapo em Paris enviava um telegrama a Berlim: "É urgente que a partida dos 1.000 judeus detidos em 12 de dezembro de 1941 se faça o mais rapidamente possível".

No dia 27 de março, às seis da tarde, o "comboio especial" formado por carros de terceira classe partiu da estação de Compiègne com 1.112 judeus, chegando a Auschwitz na madrugada de 30 de março. Henri Lang morreu no campo de concentração de esgotamento, no dia 12 de maio.

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