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Grammy: na festa da música, o que vale são os negócios

Executivos da indústria fonográfica que compõem comitê de votação não coroaram talento de Adele – mas as 15 mi de cópias que gostariam ter vendido

Paul McCartney toca ao lado de Bruce Springsteen e Dave Grohl no Grammy

Paul McCartney toca ao lado de Bruce Springsteen e Dave Grohl no Grammy (Getty Images)

Não deu outra. Após dominar as rádios mundiais e vender mais discos do que qualquer outro artista em 2011, a cantora britânica Adele só podia ser a grande estrela do Grammy – ela recebeu seis indicações e venceu em todas elas na noite deste domingo. Mas o ensinamento que a premiação deste ano deixa é outra. Alguém reparou que Lady Gaga, onipresente nas últimas três edições do Grammy, não levou nenhum prêmio? Talvez não, porque Adele, ostentando sua pose de cantora e mulher “de verdade” — o oposto da fabricação completa de Gaga –, roubou para si todos os holofotes.

Toda a encenação da rapper Nicki Minaj, que começou quando ela desceu do carro para o tapete vermelho vestida de freira, com um manto cor de sangue e um sósia do papa a tiracolo, e terminou com uma performance terrível de um "exorcismo", só fez Nicki parecer alguém que chegou tarde demais na festa. Afinal, Madonna fazia o mesmo há quase 30 anos e a própria Gaga já usou referências religiosas em seus clipes e shows. Nicki, aliás, contratou justamente a ex-diretora criativa de Gaga para cuidar do seu pequeno show.

As apresentações de Katy Perry e Rihanna também não trouxeram nada de original, apenas “mais do mesmo”. E é aí que Adele lucra. Com o mercado de música pop inflado de artistas fazendo a mesma coisa, a britânica se dá bem apostando em boas composições e uma bela voz, fórmula tão batida quanto a história da música, mas em baixa atualmente. “Se eu ganhei, tenho de agradecer aos médicos que recuperaram minha voz”, lembrou muito bem Adele, ao receber o prêmio de melhor performance pop individual.

Adele não é boba. Sabe muito bem se vender, e é por isso que faz questão de levantar todo tipo de bandeira a seu favor quando tem oportunidade. Na semana passada, por exemplo, após ser chamada de “gorda” pelo estilista Karl Lagerfeld, da Chanel, tratou de ir a público dizer que representa a “maioria das mulheres”. No entanto, nega veementemente que está tentando emagrecer, embora já seja possível constatar alguns quilos a menos em sua figura de hoje em comparação à de um ano atrás. Adele sabe que isso a faz vender discos (não que ela não tenha uma boa voz), e os executivos da indústria fonográfica, que compõem boa parte do comitê de votação do Grammy, coroaram não a cantora, mas as 15 milhões de cópias que todos eles gostariam de ter vendido. Afinal, não é de hoje que as vendas de discos andam baixas — a última pessoa a vender tantas cópias havia sido o rapper Usher, em 2004.

Moderno – Uma novidade no Grammy deste ano foi o grande destaque dado para a música eletrônica, algo inédito na premiação. No show mais longo da noite, o DJ superstar David Guetta tocou ao lado dos rappers Chris Brown e Lil Wayne, que depois deram sua vez para o DJ Deadmau5 e a banda de rock Foo Fighters. Mas quando se trata dos prêmios, a música eletrônica fica (bem) longe dos outros estilos. O DJ Skrillex (revelação do ano passado nos Estados Unidos) levou os três prêmios mais importantes da categoria para casa (melhor gravação dance, melhor álbum eletrônico e melhor remix), mas nem chegou perto do palco nas categorias em que concorria com artistas de música pop ou rock — clipe e revelação. Na última, foi vencido por Justin Vernon, do grupo indie Bon Iver, que se recusou a fazer show no Grammy e lançou ironia sobre a premiação. "Obrigada a todos os indicados, e a todos os que não foram, nem nunca serão indicados." A julgar pelo discurso, ele também não deve pisar mais na premiação.

Ao contrário de Adele, Vernon falha em algo que é essencial para o sucesso: o marketing. O Foo Fighters é um bom exemplo de banda que sabe ser marqueteira. Na estrada há 20 anos, o grupo alardeou pelos quatro cantos o disco Wasting Light, gravado na garagem do vocalista Dave Grohl com equipamentos de fita e sem computadores. O processo de gravação ainda virou um documentário com um show 3D no fim, exibido nos cinemas em 2011. Grohl, não por acaso conhecido como "o cara mais legal do rock", topa de tudo, e o resultado veio no último domingo, quando a banda levou cinco Grammy para casa.

Valeu a pena – Depois de uma longa premiação, que durou cerca de 4 horas e meia, uma a mais do que o previsto, foi bom curtir uma surpresa preparada pela organização: um encontro histórico de guitarras entre Paul McCartney, Bruce Springsteen e Dave Grohl (do Foo Fighters) no clássico medley do disco Abbey Road, dos Beatles, com Golden Slumbers, Carry That Weight e The End – é curioso notar que a gravação original consistia em um trio de guitarras formado por Paul, George Harrison e John Lennon. Fica a esperança de que algo, ali, ainda pode ser sobre música.

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