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Dieta pelo celular

A Universidade de Harvard promete para breve um aplicativo no qual, entre outras possibilidades, o usuário postará uma foto de sua refeição e receberá, quase instantaneamente, o número de calorias que está prestes a ingerir. O aplicativo Medida Certa, da TV Globo, já teve mais de 250 mil downloads, na esteira do sucesso do quadro homônimo, do "Fantástico", em que os apresentadores Zeca Camargo e Renata Ceribelli foram submetidos a um programa de dieta e exercícios que os levou a perder, no total, 13,5 quilos e a ganhar melhor condicionamento físico. Daqui a duas semanas, estará disponível também em forma de livro. Pagos ou gratuitos, programas para celular que oferecem orientação a quem quer emagrecer atraem cada vez mais usuários. E, nas lojas virtuais, como o Android Market ou a App Store, eles são contados às centenas — sem exagero. Os mais simples sugerem que se faça um diário gastronômico e se contabilize quantas calorias foram consumidas a cada 24 horas. Os mais complexos têm vídeos educativos, e, ancorados por enormes bancos de dados, revelam os nutrientes presentes nos mais diversos alimentos. Médicos e nutricionistas, no entanto, são céticos a respeito de sua eficácia — pelo menos para fazer alguém perder peso de forma segura. E dizem que tais programas podem até servir como coadjuvantes no processo, mas jamais substituirão a consulta a um especialista.

O endocrinologista Amelio Godoy de Matos é taxativo: embora tenha conhecimento de pesquisas americanas mostrando que mensagens recebidas pela internet podem ajudar na dieta, ele afirma que emagrecer orientado por um aplicativo de celular é arriscado.

— Em tese, pode ser que um aplicativo de contagem de calorias ajude, mas, em obesidade, hoje, há um interesse comercial muito grande, e em geral essas coisas vêm subvencionadas por algum laboratório ou fornecedor de produtos naturais que promete maravilhas, sem que haja provas científicas de que sua mercadoria é segura — diz. — Sou a favor de que os pacientes se informem e se eduquem pela internet, mas o problema é eles saberem decodificar as informações. Se eu digo que a tireoglobulina (proteína liberada pela tireoide) serve para acompanhar o câncer de tireoide, a pessoa pode entender que é possível diagnosticar a doença a partir dela, o que não é verdade. Até médicos se confundem. Não se pode dispensar o acompanhamento de um profissional de saúde.

A nutricionista Patricia Davidson Haiat concorda.

— Cada pessoa é única e tem indicações específicas. Nem todos que precisam emagrecer vão usar os mesmos alimentos. Se uma pessoa tem rinite, não posso passar uma dieta à base de produtos lácteos, porque ela piora. Esses aplicativos só são válidos pa$a pessoa ter controle do quanto come, a partir do que um nutricionista indicou. Se não, ela corre o risco de atingir a meta a que se propôs alimentando-se inadequadamente: quem faz uma dieta de 1.200 calorias e, num dia, come um brigadeiro, uma barra de chocolate e salada, vai alcançar sua meta, mas terá se alimentado mal.

Nem Harvard escapou ao bombardeio, antes mesmo de lançar seu aplicativo de contagem de calorias. Segundo os críticos, ao analisar a foto de um prato e dizer quantas calorias ele têm — por meio de uma complexa ferramenta de crowd-sourcing, ou coleta de dados de grupos de indivíduos —, o $da universidade fatalmente incidiria em erro, pois um prato jamais será igual ao outro. Dois hambúrgueres, por exemplo, podem ter pães de tipo diferentes, carnes com gramaturas diversas, mais ou menos molho. Os desenvolvedores acataram a ressalva e anunciaram que o aplicativo trará a observação de que o número de calorias apresentado é a média.

A boa notícia é que muitos programas trazem o aviso de que seu uso não substitui a orientação médica. É o caso do Medida Certa, que reproduz recomendações da OMS para uma boa alimentação e tem séries de exercícios criadas por Márcio Atalla.

— O Medida Certa é um bom suporte, mas a gente deixa claro que ele não substitui nem o nutricionista, nem o professor de educação física, nem o médico — diz Atalla.

Há planos de adaptar o conteúdo para um site, a fim de alcançar os interessados que não têm smartphones. Também nesta área, a internet é pródiga. O portal Metabolikey, dos nutrólogos Alexandre e Cristiano Merheb, prega um método que prevê a restrição temporária de carboidratos e exercícios físicos, e tem entre mil e 1.500 assinantes por mês.

— O método é controverso por dizer que a pessoa não tem que cortar $para perder peso, e sim normalizar a produção de insulina, algo que as pessoas não estão habituadas a ouvir — diz Cristiano Merheb. — Para tornar o programa mais conhecido, fiz o site, no qual eu e uma equipe de nutricionistas orientamos os assinantes.

Também popular é o programa Dieta e Saúde, do site minhavida.com.br, que mantém uma página movimentada no Facebook e promete resultados em seis meses.

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