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As escrituras sagradas e as crises de fé

Ed René Kivitz

Eu me converti pelo menos duas vezes. A primeira, da incredulidade para a fé. Foi quando Jesus Cristo deixou de ser um ícone religioso, um mestre da moral e um mero profeta. Naquele instante Jesus se tornou para mim Deus encarnado. Passei a invocar sua presença como quem clama por Deus.

Mas passei também por uma segunda conversão. Quando minha fé deixou de ser infantil e se tornou madura. Foi quando a convocação para o discipulado de Jesus, com todas as implicações a respeito do seu caráter, sua identidade, seu propósito redentor, e sua proposta existencial se tornaram consistentes e radicais em minha vida.

A passagem da primeira para a segunda conversão é uma crise desesperadora. Lembro da conversa que tive com um mentor espiritual. Disse a ele que havia momentos quando considerava a possibilidade de estar perdendo a fé. “É isso mesmo o que está acontecendo”, ele me disse. “Você está perdendo a fé em um Deus: o Deus da sua infância, e está ganhando fé em outro Deus, o Deus da sua maturidade. Ele é o mesmo Deus, mas para você parece outro. Agora você o percebe e se relaciona com Ele em novas dimensões. É o mesmo Deus revelado em Jesus, mas para você parece outro Deus”. Percebi então que estava vivendo uma crise de fé. E estava também saindo do casulo para ganhar asas.

Quando me dei conta de que minhas expectativas a respeito de Deus estavam sendo frustradas, que Ele não agia como eu gostaria que agisse, não fazia o que eu gostaria que fizesse, não interferia no momento exato em que eu gostaria que ele interferisse, não gerava os resultados que eu gostaria que produzisse, e que meu mundo tinha menos interferências explícitas de Deus do que eu julgava ideal, comecei a desconfiar que o Deus em quem eu acreditava não funcionava – aí estava instalada a crise de fé.

Você sabe que está em uma crise de fé quando percebe que as respostas que você costumava dar a respeito de Deus e das suas relações com o mundo e com a vida já não são mais suficientes para sustentar sua fé. Suas antigas crenças não oferecem mais esperanças nem explicações para o que está acontecendo com você e ao seu redor. Quando você confronta suas crenças com a realidade, percebe que de fato, “na prática, a teoria é outra”. E então você é chamado a ressignificar toda a sua teoria.

No momento seguinte você perde o entusiasmo para o compromisso e engajamento nas coisas de Deus. Buscar em primeiro lugar o reino de Deus deixa de ser uma preocupação do seu coração. Sua vida está cheia de frustração e você está decepcionado com Deus.

Você está vivendo o que São João da Cruz chamou de “a noite escura da alma”, marcada pela ausência e o silêncio de Deus. Você não mais percebe Deus, não sente Deus, não ouve Deus, não vê Deus, não experimenta Deus. É como se Deus não existisse.

O poeta bíblico, entretanto, diz que “o choro pode durar uma noite, mas pela manhã vem a alegria” [Salmo 30.5]. A crise de fé chega ao fim. Depois dela a fé reaparece renovada, mais consistente, madura, forte, quase inabalável. Mas há um segredo entre a fé infantil e a fé adulta: as Escrituras Sagradas.

Foi o que aconteceu com os dois discípulos a caminho de Emaús, que ouviram Jesus explicar tudo quanto Moisés e os profetas haviam falado a respeito de Deus e seu Messias [Lucas 24.13-35]. Naquele momento, as Escrituras Sagradas deixaram de ser um conjunto de informações a respeito de Deus, e se tornaram a própria voz de Deus que fazia arder de paixão seus corações. Enquanto caminhavam ouvindo Jesus expor as Escrituras Sagradas, ouviam o próprio Espírito de Deus sussurrando que eram filhos de Deus [Romanos, 8:16].

Há uma grande diferença entre o Deus descrito pelos clichês das tradições religiosas e o Deus revelado nas Escrituras Sagradas e encarnado em Jesus de Nazaré. As Escrituras Sagradas são divisor de águas entre a fé infantil, que aos poucos se torna fé morta, da fé adulta, capaz de enfrentar o mundo e a vida, quaisquer que sejam as circunstâncias. As Escrituras sagradas são o ponto de ruptura entre a superstição e a idolatria, e a fé autêntica no único Deus vivo e verdadeiro [1Tessalonicenses 1.9].

Você pode considerar que está saindo de sua crise de fé quando começa a perceber que Deus está deixando de ser uma verdade superficial e um poder eventual e aos poucos está se tornando íntimo a você “na mesa da comunhão”: na pequena aldeia de Emaús, no partir do pão e nas ações de graças, os olhos dos homens em crise de fé se abrem para a presença amorosa de Deus em Jesus.

Ao contemplar Deus conforme revelado nas Escrituras Sagradas e encarnado em Jesus de Nazaré, você faz a mesma descoberta que Santo Agostinho fez: “Deus me é mais íntimo que meu íntimo, mais íntimo que eu a mim mesmo”. Deus deixa de ser aquele que age com poder do lado de fora para se tornar aquele que habita em você. Deus deixa de ser visível (e procurado) naquilo que faz ou deixa de fazer, e passa a ser real, íntimo e pessoal. E o Espírito de Deus ensina você a orar afetuosamente “Abba, Pai”, enquanto vibra em seu coração a amorosa declaração de Deus: “Você é meu filho amado, em quem tenho prazer; você é minha filha amada, razão da minha alegria”.

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