Religião sem revelação: uma usina de loucos

A Caim cabe o título altivo de primeiro apóstata da história da humanidade. Abel, seu irmão, entretanto, parece ter aprendido desde cedo algo que faltava a Caim: a piedade com contentamento.

Só a revelação pode emprestar à religião o sentido de sacralidade da vida; Sem a revelação a prática religiosa torna-se uma experiência enfadonha, decepcionante, e por isso também  perigosa. Sem a revelação jamais será capaz de providenciar o estofo que o homem precisa para preencher os buracos existenciais de sua alma aflita.

Caim era um homem angustiado. Carregava consigo rancores que lhe amargavam as entranhas e, por mais que praticasse a religião dos seus pais, não conseguia se desvencilhar das garras de um coração sombrio; respirava um ressentimento imenso em relação ao irmão.

Alguns dizem que Caim invejava a graça e prosperidade de Abel. A etimologia da palavra “inveja”, do latim “invidere”, significa basicamente “olhar para”, no sentido de querer “o brilho” do outro. A inveja visa não necessariamente os bens do outro, mas a graça do outro. É sem dúvida uma das enfermidades mais daninhas da alma humana.

Pelo que o texto bíblico indica, Abel atraiu a inveja e o ódio de seu irmão porque “o Senhor aceitou com agrado Abel e sua oferta, mas não aceitou Caim e sua oferta.” (Gn 4:4-5) por isto, continua o texto, “Caim se enfureceu e o seu rosto se transtornou”.

Note-se que o texto trás implícita a idéia de que o Senhor antes de “aceitar” a oferta, precisa aceitar o ofertante. A oferta em si pouco importa. O coração do ofertante, isto sim é tudo. A prática da religião, no que respeita à observação litúrgica dos seus cerimoniais pouco importa se aquele que traz a sua oferta ao altar não tiver o coração aprovado.

Abel tem a sua oferta aceita porque já antes tivera o coração aprovado. Vivia uma espiritualidade refletida, ao passo que Caim transitava na esfera de uma espécie de religiosidade feita de protocolos apenas. Caim tinha a informação, mas não tinha a revelação. Uma vivência religiosa nesses moldes produz um ritualismo marcado por uma  mecanicidade estéril e sem vida.

O coração árido de Caim certamente não entendia de onde procedia a graça, o contentamento, a prosperidade que seu irmão Abel desfrutava. Aquilo provavelmente o incomodava muitíssimo. Por ser o irmão mais velho, ele e o não o caçula deveria desfrutar de tais bênçãos, conjecturava. Deus estava sendo injusto para com ele!

A autocomiseração e desejo por reparação começaram a fermentar em sua alma. Sua religião com todas as práticas cerimoniais afinal não estavam ajudando-o em nada.  Faltava-lhe algo e ele não entendia. Provavelmente faltou-lhe também humildade para perguntar ao irmão qual era o segredo. Em sua frustração e revolta, resolveu seguir a inclinação de seu coração corrompido. Deus, em seu irmão, incomodava muito. Decidiu resolver o problema de Deus. Matou-o.

Esaú, como Caim, também  foi um homem que desprezou a Deus de uma maneira soberba. A sua auto-suficiência foi tão grande a ponto de conduzi-lo a desprezar a bênção de Deus completamente. Como Caim, tem uma diferença com o irmão mais novo. Só não perpetrou o intento de assassinar a Jacó porque publicou o plano.  Ensinados pelo mesmo professor, Esaú e Jacó tomam rumos opostos. A religião de ambos vai resultar nula para um e cheia de significados para outro.

A revelação novamente faz toda  diferença. Esaú desviou-se para sempre. Jamais voltou atrás em suas obstinação; Ainda que depois de velho tenha se reconciliado com o irmão mais novo, jamais conheceu a sublimidade do quebrantamento. Empestiou com sua peçonha  toda a sua descendência. Mesmo depois de morto continuou a perseguir o irmão Jacó, através de seus desdendentes. Desde Amaleque, passando por Hamã, até Herodes, Esaú, o pai dos Edomitas intentou contra Jacó, o pai dos Israelitas.

A religião sem a revelação é uma experiência de finalidade incerta. Ensinar ao homem as verdades de uma moral elevada sem capacitá-lo a vivê-las de modo prático é um experimento perigoso. Colocado numa situação profundamente incômoda, o homem experimentará de contínuo a frustração e a culpa, por não se ver capaz de obedecer às imposições exigidas.

É grande a lista de filhos que na Bíblia se extraviaram e cometeram loucura. Ainda que ensinados na religião de seus pais, perderam-se nas engrenagens frias do cerimonialismo religioso e, levantando-se contra todos os princípios recebidos cometeram torpezas sem que o legado religioso lhes pudesse deter.

Caim fez escola. Sua religião sem revelação fez dele o primeiro dos loucos. Antes de passarmos aos nossos filhos as nossas convicções espirituais, deveríamos orar muito para que eles sejam contemplados com o clarão que um dia dissipou nossas trevas. Assim, e só assim, poderemos descansar sobre o fato de que não correrão o risco de pirar como muitos nessa imensa e absurda usina de loucos que é a religião sem revelação!

» LUIS LEITE é escritor, conferencista, administrador de empresas e psicanalista. Preside a Int. Fellowship Network e pastoreia a Igreja Vida com Cristo, em BH (MG).

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