Identidade

Na jornada da vida o que mais se percebe são as diferentes faces da sobrevivência. Os sonhos mudam, os ideais vacilam, o querer se contenta com o ter e o ser se resume no estar. A síndrome de Eva se acentua quando os perdidos e sem identidade insistem em condenar alguém pelos fracassos. Edward Wilson disse: “nossos problemas surgem do fato de não sabermos o que somos e não chegarmos a um acordo quanto ao que queremos ser”.

A vida é um teatro onde todos vivem encenando. A verdadeira identidade não está explicita nas atitudes que os olhos vêem, mas sim nas que o coração insiste em esconder. A facilidade em condenar alguém pelos insucessos é um escape para não se admitir as imperfeições. José Alberto disse: “se ficarmos reparando os defeitos das outras pessoas nunca iremos participar da vida, pois vamos nos contentar com as nossas desculpas”.

O jogo do “empurra empurra” os valores se atacam. A liberdade se confunde com o não ter responsabilidade. Fidelidade se resume em esperar melhores oportunidades. A sinceridade se disfarça debaixo da agressividade. Infelizmente, nesta vida o que se diz quase sempre não é o que se quer dizer. Contudo, o silêncio tem mais palavras do que um longo discurso. Como diria Cláudio de Souza: “na música, o próprio silêncio tem ritmo”.

Os gritos da auto-justificativa abafam a possibilidade de mudanças. Do nascer ao morrer cada pessoa constroe a sua própria identidade. Tudo pode ser diferente, desde que realmente se queira modificar. O quadro da vida pode estar todo rabiscado e indefinido, mas não é o fim, talvez só esteja de cabeça para baixo. Mário Bonatti certa feita disse: “a vida tem a cor que você pinta!”.

A busca pelo amadurecimento na identidade não se resume em atitudes simplistas ou empolgantes. As mudanças não ocorrem num instante, porém é necessário ter um instante para começar a mudar. Clarice Lispector compreendia tal complexidade: “até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro”.

Que Deus nos ajude!

» VINÍCIUS O. S. GUIMARÃES é professor das áreas de teologia e administração, diretor do Seminário Evangélico de Teologia da América Latina (www.setal.org.br), presidente da Missão Tocando as Nações (www.mtn.org.br) e pastor da Comunidade da Fé – Igreja Cristã (www.cofe.org.br).

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