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Economia americana em xeque

Empresários brasileiros analisam a recuperação da economia dos Estados Unidos


A economia dos Estados Unidos está no caminho da recuperação econômica, mas as incertezas continuam para milhares de americanos que não sabem o que vai acontecer nos próximos meses, principalmente diante do aumento da dívida interna do país e do crescimento instável que a economia apresenta. O presidente Barack Obama alertou o Congresso americano, mais uma vez, de que a não elevação do limite do endividamento do país poderia levar a uma crise financeira e recessão econômica pior do que a de 2008 e 2009, se investidores começassem a duvidar da capacidade do governo americano de honrar suas dívidas.Pronunciamentos como esse colocam o país em situação vulnerável, o que não é bom para as economias americana e mundial.

Num jogo político sem precedentes, Obama falou que o futuro econômico do país depende do aumento do limite do endividamento dos Estados Unidos, dos cortes de gastos da máquina governamental, e das medidas para redução do déficit americano. “Se investidores ao redor do mundo pensarem que a confiança no crédito dos Estados Unidos não está sendo suportada… isso poderia desemaranhar todo o sistema financeiro”, disse Obama. “Poderíamos ter uma recessão pior do que tivemos.” E diante de pronunciamentos como estes, treme a bolsa de valores, os investidores ficam em alerta e a economia permanace em situação de fragilidade.

Todos sabem que  Casa Branca e os republicanos no Congresso estão travados em um debate sobre o déficit americano e o limite da dívida do país. Espera-se que o Departamento do Tesouro atinja seu limite de endividamento de US$ 14,3 trilhões, tornando o governo incapaz de emitir mais títulos de dívida. Atualmente, a dívida está em US$ 14,294 trilhões. Agosto é o mês que, segundo eles, define o futuro econômico do país. Líderes republicanos, que têm dito concordar com a necessidade de aumento do limite da dívida, disseram que não vão aprovar nenhuma medida de elevação do endividamento sem que as autoridades definam passos para mantê-lo sob controle. Obama afirma estar comprometido com a redução do déficit, mas que isso não está relacionado ao limite de endividamento.

O secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner, advertiu o Congresso de que se o limite não fosse ampliado, os EUA não teriam condições de cumprir com suas obrigações financeiras frente a “funcionários, cidadãos, empresários e investidores”. “Isso seria um acontecimento sem precedentes na história do país, que teria consequências extensas e catastróficas para a economia americana, reduzindo o crescimento e aumentando o desemprego.” O presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, também advertiu os parlamentares sobre o perigo. “É uma proposta arriscada não elevar o limite da dívida em um prazo razoável”.

Com tantas oponiões controversas e politizadas, o americano e milhares de imigrantes que moram nos Estados Unidos, incluindo o brasileiro, não sabem o que realmente pode acontecer nos próximos meses. A reportagem da Linha Aberta entrevistou líderes brasileiros que falaram sobre a economia dos Estados Unidos.

Para Aloysio Vasconcellos, presidente do BBG, Brazilian Business Group, o pior já passou. As grandes crises, em especial a dos bancos americanos, estão controladas. Segundo ele, o retorno a uma dinâmica de crescimento compatível com a envergadura da economia norte-americana é que ainda está em vias de ser atingido. “E este é o grande desafio, pois não se trata apenas de uma retomada numérica, resultante de melhoria de performance, mas sim das condições gerais de trabalho, oriundas das novas relações capital – trabalho, subprodutos da enorme transformação porque passou o mundo em níveis tecnológicos e das novas aspirações individuais de todos”, explicou.

Vasconcellos disse que a sintonização mundial é super importante, afirmando que, independentemente de revezes e alguns fracassos, os EUA continuam a manter a liderança mundial em termos econômicos (O GNP, de longe, é o maior do planeta), uma máquina militar sem contraposição no mundo e uma enorme concentração de cérebros e pesquisas superior aos outros países. “Apenas para ilustração numérica, podemos indicar os excelentes resultados obtidos no último trimestre pela Macy’s, tradicional conglomerado norte-americano, especializada em produtos de consumo.

O presidente da Câmara do Comércio Brasil-Estados Unidos da Flórida, Saulo Ferraz, acredita que o pior já passou, mas ainda existem muitos passos a serem dados. Ele disse que a economia vem se recuperando gradativamente com alguns solavancos, mais ainda assim depende de fatores internos e muitos externos. Ele aponta como um dos principais, no lado externo, a relação entre o crescimento econômico e os temores inflacionários na China, que podem impactar o aquecimento da economia americana, que tem um dos seus apoios na política de exportação de produtos americanos.

Segundo ele, os sinais de mercado que mostram a real situação econômica do pais e que merecem ser analisados são a produção industrial e o nível de desemprego. “Apesar destes números terem melhorado em comparação ao auge da crise, ainda podemos identificar alguns altos e baixos. Nas últimas medições econômicas, por exemplo, vimos que o número de pedidos de seguro desemprego subiram, assim com a produção industrial caiu em relação às medições anteriores. Isto mostra claramente que apesar da melhoria na economia, alguns desafios ainda estão por vir”, assegurou.

Para Monica Ribeiro, vice-presidente do BankAtlantic de Deerfield Beach, a economia americana “está em melhor crescimento, mas ainda estamos muito aquém de dizer que o pior já passou”. Ela disse que não se sai de uma recessão para uma bonanza de uma outra para outra e salientou que, em termos econômicos, dados concretos e resultados reais só aparecem depois de no mínimo 5 anos. “Só vamos saber se saimos desse período daqui há algum tempo. Eu diria que no momento estamos retomando o folego depois do susto”, afirmou. Para ela, os principais sinais da recuperação da economia, até o momento, são a queda do desemprego nacionalmente  e o aumento das vendas no comércio. Ela salienta que apesar das vendas de imóveis terem subido, o índice de foreclosure e bankruptcy continua em alta mas a pequena melhoria no mercado imobiliário ainda não é suficiente para determinar a direção da economia.

Para o contador Marcos Rezende, da The Way Group, de Deerfield Beach, a recuperação econômica dos Estados Unidos vai ser muito lenta na maioria dos setores. “O pior ainda não passou, agora é que estamos entrando na crise do setor governamental e o problema das cidades, condados, estados é o pior de todos”. Segundo ele, o governo federal terá de ajustar drasticamente os orçamentos e isso significa muito desemprego e infelizmente o setor privado não terá como absorvê-los.  “Sem falar no custo de vida, que aumentará bastante em função do preço da gasolina que afeta praticamente o preço da maioria dos produtos e serviços da economia e dificilmente serão recuperados em aumentos de salários, portanto o consumidor terá menos dinheiro para comprar e comprando menos a economia terá uma recuperação mais lenta”, explicou.

Segundo Rezende, são vários os sinais que mostram a real situação da economia americana, principalmente o desemprego nos setores governamental. “Todos sabemos que o crescimento no setor imobiliário ainda provém de investidores que estão aproveitando os short sales, foreclosures e leilões. Também vemos o aumento drástico dos aluguéis residenciais, sinal de que não há compradores, pois uma grande maioria das pessoas ficaram com problemas de crédito, devido à crise, e agora terão que esperar pelo menos de dois a três anos para melhorarem o credit score”, afirmou. Ele explica que todos esses são fatos de uma economia fragilizada pela situação econômica que o país vive.

O aumento dos preços e a inflação

A inflação ao consumidor dos Estados Unidos atingiu o maior nível desde outubro de 2008, com os preços de alimentos e energia subindo. A taxa, em maio, ficou em 3,2% em 12 meses. O Departamento de Trabalho dos EUA informou que o índice de preços ao consumidor subiu 0,4% em maio, em linha com as expectativas do mercado, após uma alta de 0,5% em abril. O preço da gasolina foi responsável por quase metade da alta da inflação geral no mês passado, avançando 3,3%. O preço dos alimentos subiu 0,4%, após um acréscimo de 0,8% em abril. Ajustada para a inflação, a renda semanal nos EUA caiu 0,3% em maio, após um declínio de 0,4% em abril.

Outros dados do Departamento do Trabalho mostraram que a confiança do consumidor norte-americano aumentou no início de maio, com um otimismo sobre o mercado de trabalho reduzindo o impacto dos elevados preços de gasolina e alimentos. A perspectiva mais fraca reflete expectativas ruins sobre renda e a inflação. Apenas 21% dos pesquisados espera uma melhora das condições financeiras pessoais neste ano, mesmo percentual registrado na mínima histórica da pesquisa em 2008. A expectativa de inflação do consumidor para daqui a um ano caiu de 4,6% para 4,4% e o cenário para cinco a dez anos subiu de 2,9% para 3%.

Diante desta realidade, o Banco Central dos Estados Unidos, Federal Reserve, prevê para baixa as perspectivas de crescimento da economia para este ano, que deverá ficar entre 3,1 por cento e 3,3 por cento, abaixo do intervalo de 3,4 a 3,9 por cento estimado em Janeiro pela Fed. E apesar de perspectivar um aumento “temporário” da inflação acima das estimativas iniciais, num aumento estimado entre 2,1 e 2,8 por cento, a taxa de juro de referência vai manter-se, tal como previsto, em valores históricos, entre zero por cento e 0,25 por cento.

O presidente da Fed, Ben Bernanke, disse que o banco central vai acompanhar de perto a economia e tomará as medidas necessárias caso persista a alta dos preços. Ben Bernanke promete, por isso, manter-se atento aos sinais no curto prazo e, mesmo com a subida temporária dos preços em 2011, acredita que os preços vão acabar por estabilizar. Para Bernanke, essencial é combater o desemprego de longa duração, por exemplo, respondendo com mecanismos para que os norte-americanos não percam o contato com o mercado de trabalho no caso de estarem mais de seis meses sem trabalho. Um ponto positivo é que a cada mês, cresce o número de ofertas de trabalho nos Estados Unidos.

No entanto, diante da inflação, do aumento dos preços da gasolina, dos alimentos e de bens de consumo, muitos empresários estão preocupados com a saúde financeirra dos Estados Unidos.  Saulo Ferraz,  presidente da Câmara do Comércio Brasil-Estados Unidos da Flórida, disse que a inflação é um risco, nao só nos EUA, mas principalmente nas economias emergentes como Brasil e China. Com relação aos Estados Unidos, as previsões para a inflação de curto prazo continuam a refletir nos custos crescentes da energia e commodities. Ele disse que o cenário de desemprego existente, a capacidade não utilizada na indústria  combinado com algumas pequenas turbulências financeiras não permite uma analise clara para previsão de aumento da inflação imediata. “De qualquer maneira é algo a ser monitorado e que certamente será alvo de analises no futuro próximo, afirmou.

Monica Ribeiro, vice-presidente do BankAtlantic de Deerfield Beach, disse que já vivemos um momento de inflação nos Estados Unidos.  “Nos últimos 6 meses os índices praticamente dobraram e o preço da gasolina, de matérias prima e de alimentos são a maior prova disso. As consequências são conhecidas da maioria dos brasileiros, ou seja,  uma maior intervenção do governo em diversas áreas da economia, o que é exatamente contra os fundamentos da economia americana”. Ela disse que, com a queda da renda per capita, os altos índices de desemprego, a reforma na área de saúde, os custos das operações militares e os subsídios do governo em várias áreas, além de outros fatores predominantes como a dívida interna, afetam a economia do país e precisam ser levados em consideração. “O perigo seria a volta da recessão, o que inibiria  o empreendorismo americano”, ressaltou.

Marcos Rezende, da The Way Group, disse que nós já vivemos um período inflacionário. “Para uns a inflação pode ser maior do que para outros, e com certeza se a gasolina continuar nesse rítmo de aumento de preços, todos nós veremos o resultado no bolso. Muitas pessoas já tiveram que mudar o estilo de vida, reduzindo as despesas alimentícias, apagando as luzes da casa, subindo o ar condicionado, indo menos vezes aos restaurantes, enfim reajustando a vida à nova realidade”. No entanto, Marcos Rezende acredita que “jamais veremos aqueles dias negros de épocas passadas que vivemos no Brasil, quando o preço do pão francês, do cafezinho e praticamente tudo aumentava dia-a-dia”.  Segundo ele, o efeito negativo que mais preocupa os líderes políticos, num período inflacionário, é que além da perda real do poder de compra do dinheiro a inflação desencoraja investimentos e poupança, pois as pessoas preferem estocar produtos com medo do aumento de preços e uma inflação muito alta faz com que haja, também, falta de produtos.

Para Aloysio Vasconcellos, presidente do Brazilian Business Group,  o risco de uma inflação existe em qualquer economia no mundo.  Ele destaca que existem vários fatores a serem levados em consideração. Entre eles, o jôgo cambial praticado por muitos, em especial a China, o carryover que cria sensação de riqueza no Brasil, e outras medidas que elevaram os preços em geral e das commodities em particular. Vasconcellos explica que a liquidez internacional mantem-se elevada, entezourada, mas dando respaldo a investimentos não produtivos, na busca por melhores remunerações do capital.

“Vivemos algo parecido com o que aconteceu nos anos 70 e princípios de 80, quando passamos pela tormenta da inflação. Mais do que se falar sobre as consequências nos EUA, deveríamos focar nas consequências fora dos EUA, já que na terra do Ti Sam, em algum momento, os juros deverão subir, em razão da continuação da retormada do crescimento e dos capitais que serão atraídos para o país. Com isso, teremos o fortalecimento do dólar e, consequentemente, maior poder aquisitivo para a América”, afirmou. Aloysio disse que os produtos de maior tecnologia, portanto, ficarão mais caros, mas terão que ser comprados. Países que ficaram parados economicamnte nos últimos anos, certamente terão que pagar a conta,num mundo mais tumultuado,  já que a síndrome árabe é bem recente e pode se espalhar pelo mundo”, sentenciou.

A dívida interna americana

Sobre o crescimento da dívida interna do país, Saulo Ferraz afirma que este é um problema para os Estados Unidos e também para o Brasil. No caso norte americano, houve uma deterioração muito forte nas contas públicas nos últimos anos, o que fica potencializado em uma situação econômica não tão forte. “Isto fará com que o governo tenha que administrar a dívida interna durante muito tempo. Em algum momento, existirá a necessidade de se elevar rendimento dos papéis do Tesouro, o que num momento de pressão inflacionária, pode ajudar mas, como  contrapartida,  pode esfriar a atividade econômica, o que não é o ideal num momento como o atual.

Marcos Rezende acredita que  a dívida interna é um problema e que  alguém vai ter que pagar a conta. “Com certeza, a partir de 2012 todos nós já estaremos pagando um pedaço desse dívida absurda, estaremos perdendo vários incentivos ou benefícios, que temos nos dias de hoje, em nosso imposto de renda e se o crescimento continuar lento será muito difícil não aumentar os impostos, portanto aumento de imposto é o maior perigo”, afirmou o contador.

Aloysio Vasconcellos afirma que enquanto o dólar for a moeda padrão do mundo capitalista, o impacto é gerenciável. “Evidentemente, ninguém pode passar impune por gerações de irresponsáveis, neste grupo todos nós nos incluímos, administradores públicos, políticos e consumidores. Parece-me, entretanto, que hoje há uma consciência bem mais clara para onde tudo pode nos levar”, afirmou. Aloysio disse que não acredita que o dolar norte-amerciano tão cedo  perderá sua condição de primeira moeda, sendo otimista quanto ao melhor balanceamento dos orçamentos e das dívidas internas.

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