O Egito depois da queda do ditador Hosni Mubarak

» LAINE FURTADO

Entenda a crise do país, saiba qual será o futuro do Egito e veja o gráfico cronológico dos principais momentos vividos pelo povo egípcio

O s líderes militares que tomaram o poder após a queda do presidente Hosni Mubarak dizem que irão governar o país por seis meses, ou até quando eleições presidenciais e parlamentares puderem acontecer.

Tanto a câmara baixa como a alta do Parlamento foram dissolvidas. As últimas eleições parlamentares de novembro e dezembro são suspeitas de terem sido manipuladas pelo partido governante, eliminando praticamente qualquer representação da oposição.

O atual gabinete de ministros, nomeado por Mubarak pouco depois das manifestações em massa a favor da democracia, iniciadas em 25 de janeiro, permanecerá até que se forme um novo gabinete, algo que não deve ocorrer até as próximas eleições.

O conselho militar reiterou que cumprirá com todos os tratados internacionais acordados pelo Egito durante o governo de Mubarak, especialmente o tratado com Israel.

O ditador Hosni Mubarak, 82, renunciou ao poder depois de comandar uma ditadura com mão de ferro durante 30 anos. Em poucos minutos, centenas de milhares estavam em festa e aos gritos na praça Tahrir, epicentro das manifestações de oposição.

A saída de Mubarak solidifica a crise no mundo árabe, sendo a segunda ditadura a ruir na região em menos de um mês. Ainda no dia 14 de janeiro a Revolução do Jasmim levou o ditador da Tunísia, Zine el Abidine Ben Ali, a abandonar o país, em meio ao movimento que se alastrou para outros países, causando protestos na Mauritânia, Argélia, Jordânia e Iêmen.

A renúncia ocorreu menos de 24 horas depois de fortes rumores de sua saída imediata do poder. Na noite anterior, Mubarak discursou à nação e disse que passava parte de seu poder a Suleiman, mas permaneceria até setembro, quando estão previstas eleições presidenciais. O discurso de “fico” causou fúria nos manifestantes que marcharam em direção ao Palácio Presidencial aos gritos para que deixasse o poder . Um dia depois, Mubarak renunciou ao cargo de presidente.

Os violentos protestos registrados no Egito por mais de duas semanas registraram quase 300 mortes, segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), além da morte de jornalistas e diversos ataques à imprensa.
Iniciadas no Cairo, as manifestações se espalharam por outras cidades, como Alexandria e Suez. O Exército teve um papel crucial desde o início da crise, por vezes apoiando a população mas em algumas ocasiões também abrindo fogo contra os manifestantes.

Militares prometeram entregar o poder a um presidente eleito

Depois da saída de Mubarak, uma Comissão Constitucional que inclui um representante da Irmandade Muçulmana, principal grupo de oposição do Egito, foi nomeada pelo Conselho Militar que governa o Egito.
Os militares deram a seus oito membros dez dias para elaborar propostas de mudanças na Constituição, que depois serão submetidas, em até dois meses, a um referendo popular. O conselho prometeu que entregará o poder egípcio a um governo eleito no prazo de seis meses.

A Comissão Constitucional é liderada pelo juiz aposentado Tariq El-Bishri, e entre os seus outros sete participantes há três especialistas constitucionais e um membro de alto escalão da Irmandade Muçulmana, que era banida durante o governo do ex-presidente Hosni Mubarak.

De acordo com uma mensagem divulgada pelos militares, a Comissão foi encarregada de “corrigir todos os artigos (da Constituição) como acharem necessário para garantir a democracia e a integridade das eleições presidenciais e parlamentares”.

O grupo encarregado de pensar nas alterações se reuniu pela primeira vez com o chefe da junta militar que comanda o país. “As Forças Armadas querem entregar o poder o mais rápido possível. Elas querem emendas à Constituição”, disse Sobhi Saleh, um advogado e ex-parlamentar da Irmandade Muçulmana.

A rapidez dos trabalhos e da transição para um poder civil devem agradar a oposição e a população, mas alguns analistas advertem que o prazo para reformar a Constituição pode ser curto demais para sua magnitude.
Até então, a Constituição concentrava os poderes na mão de Mubarak – forçado a renunciar em fevereiro, pressionado por 18 dias consecutivos de protestos populares – e de seus aliados. A Constituição foi suspensa pelos militares logo apos a renúncia de Mubarak, no mesmo dia em que o Parlamento foi dissolvido.

Um novo partido político

A Irmandade Muçulmana afirmou que pretende formar um partido político, após o fim do regime do presidente Hosni Mubarak. O governo de Mubarak havia banido a Irmandade Muçulmana das eleições, mas seus membros acabavam concorrendo como independentes. “A Irmandade Muçulmana acredita na liberdade de formar partidos e, portanto, está determinada a ter seu próprio partido político”, afirmou Mohammed Mursi, um membro do escritório político do grupo, em comunicado.

A Irmandade Muçulmana é o mais poderoso grupo da oposição organizada no Egito. Nas eleições parlamentares de 2005, seus candidatos obtiveram 20% dos votos no Legislativo. No ano passado, porém, a Irmandade Muçulmana boicotou o segundo turno das eleições legislativas, após não conseguir nenhuma cadeira no primeiro turno, em meio a várias denúncias de fraude e violência em prol do governista Partido Democrático Nacional, de Mubarak. A Irmandade Muçulmana não liderou, mas se uniu aos protestos nacionais que culminaram com a queda de Mubarak. O grupo diz que não pretende concorrer nas próximas eleições presidenciais.

O grupo é alvo de temor no Ocidente e entre alguns rivais seculares, segundo os quais a Irmandade Muçulmana poderia chegar ao poder pelas urnas para implementar a lei islâmica no mais populoso país árabe do mundo. A Irmandade Muçulmana rejeita esse cenário, insistindo que apoia demandas mais amplas dos manifestantes pela democracia, que derrubaram Mubarak e buscam agora um sistema aberto multipartidário. A Irmandade Muçulmana foi oficialmente banida na década de 1950, mas tem centenas de milhares de membros e opera uma vasta rede de programas sociais e religiosos pelo Egito.

Greves afetam a economia e a estabilidade do paÍs

O Conselho Militar voltou a pedir o fim das greves que se proliferaram no país nos últimos dias e que aumentaram a paralisia da economia egípcia, já prejudicada pelos 18 dias de protesto anti-Mubarak.
“O Conselho Supremo está ciente das circunstâncias econômicas e sociais pelas quais a sociedade está passando, mas isso não poderá ser resolvido até que acabem as greves e os protestos”, declararam os militares, segundo a agência estatal Mena. “Os resultados (das greves) serão desastrosos.”

As greves diminuíram de intensidade, principalmente porque escritórios e negócios fecharam em decorrência de um feriado islâmico. Mas correspondentes relaram que protestos menores continuam no interior do país, promovidos por trabalhadores que exigem salários maiores. Pouco a pouco, o pais volta a normalidade.

Egito pede ajuda a comunidade internacional

O ministro das Relações Exteriores do Egito, Ahmed Abul Gheit, pediu que a comunidade internacional ajude a acelerar a recuperação econômica do país, após a revolta que derrubou o presidente Hosni Mubarak.
Em comunicado, Abul Gheit pediu à comunidade internacional que “forneça ajuda à economia egípcia, que foi duramente afetada pela crise política que sacudiu o país”. Os comentários são divulgados em meio a uma onda de greves que pode paralisar o país após a queda de Mubarak. A nova liderança militar pediu o fim dos protestos e da desobediência civil, apesar de não ter proibido as greves até o momento.

Egito garante que vai continuar a apoiar o povo palestino

Membro do governo interino apoiado pelos militares, Gheit também “enfatizou que o Egito permanece próximo da causa palestina e continua a apoiar os direitos do povo palestino”, incluindo a busca de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU para congelar as obras em assentamentos israelenses. Esses assentamentos ficam em áreas que os palestinos querem como parte de seu futuro Estado independente.

O Conselho Supremo das Forças Armadas acalmou Israel e os Estados Unidos, ao afirmar que serão cumpridos todos os tratados internacionais do Egito. Entre eles está um acordo de paz com Israel, fechado em 1979.

Os comentários de Abul Gheit são feitos após ele falar com os ministros das Relações Exteriores de EUA, Reino Unido e Arábia Saudita, bem como com o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas.

O comando militar estabeleceu um cronograma para que ocorram eleições democráticas em seis meses, sendo em seguida o poder entregue a um governo civil. E importante lembrar que Mubarak estava havia 30 anos no poder, mas renunciou após 18 dias de grandes protestos populares.

O conselho militar que está governando o Egito anunciou que pretende transferir o poder para os civis, incluindo um presidente eleito, dentro de seis meses.

“O Supremo Conselho Militar expressou a esperança de entregar o poder dentro de seis meses para uma autoridade civil e um presidente eleito, de um modo livre e pacífico que expresse a visão do povo”, disse a agência estatal de notícias Mena.

“O Conselho afirma que não busca o poder, que a situação atual foi imposta às Forças Armadas e que elas têm a confiança do povo”, acrescentou a nota.

A história de Mubarak

De formação militar, presidente atuou na Força Aérea Egípcia e está no governo desde 1981
O ditador Mubarak ascendeu na Força Áérea, principalmente pelo seu desempenho na guerra de Yom Kippur com Israel, e tornou-se vice-presidente em 1975. Ele assumiu a Presidência quando islamitas mataram a tiros seu antecessor, Anwar Sadat, em um desfile militar em 1981.

Mubarak se beneficiou de artigos da Constituição egípcia que ditam mandatos presidenciais de seis anos com um número de reeleições indefinidas. Além disso, alterações à lei fizeram com que a vitória de candidatos de outro partido que não o seu fosse praticamente impossível.

Sob denúncias de corrupção e em meio a diversas acusações de abusos de autoridade e prisões tornadas possíveis devido ao estado de emergência, em vigor há 30 anos no país, a imagem de Mubarak deteriorou-se ao longo dos anos.

Aliado de Washington na região, o ditador usufruía de boas relações com o Ocidente embora fosse fato conhecido de que seu governo era uma ditadura de mão de ferro. Mubarak também era bem visto por ter mantido um acordo de paz com Israel, assinado em 1979, país com o qual o Egito travou três guerras.

Nas eleições legislativas de novembro passado, o partido de Mubarak ganhou cerca de 90% dos assentos no Parlamento, que viu a principal oposição islâmica perder todos os seus 88 lugares, garantindo ao partido de Mubarak as decisões do Parlamento e apertando o punho Mubarak no poder.

Desde que renunciou, há relatos de que a saúde de Mubarak, 82, estaria se deteriorando. O ex-presidente está supostamente isolado em sua residência no balneário de Sharm El-Sheikh, na costa egípcia do Mar Vermelho.
O jornal saudita Asharq Al-Awsat relatou, citando fontes militares, que o estado de saúde de Mubarak está “declinando drasticamente” e que ele se recusou a viajar ao exterior para tratamento. Em seu último discurso à nação, o ex-presidente disse que morreria no Egito. Ele não foi visto em público desde sua renúncia.

OS PRINCIPAIS MOMENTOS DA CRISE NO EGITO, EM ORDEM CRONOLÓGICA

– 25 de janeiro Inspirados nos protestos da Tunísia que derrubaram o presidente Ben Ali, os egípcios foram às ruas para o Dia de Fúria, manifestações contra o regime de Hosni Mubarak organizadas pela internet. Cerca de 15 mil egípcios foram à Praça Tahrir, no centro do Cairo, em atos contra a corrupção, o alto custo de vida e as políticas do governo. Houve confrontos com a polícia.

-29 de janeiro
Nas primeiras horas do dia, Mubarak anuncia que seu gabinete renunciaria. Mais tarde, nomeia o chefe da inteligência do país, Omar Suleiman, como vice-presidente – o primeiro em seus 30 anos de mandato. O presidente ainda incumbe Ahmed Shafik, o novo primeiro-ministro, a formar um novo governo. ElBaradei exorta Mubarak a renunciar.

– 31 de janeiro
No sétimo dia, os manifestantes anunciaram que organizariam para o dia seguinte uma marcha com um milhão de pessoas. Já na segunda, cerca de 250 mil se reuniram na Praça Tahrir. A polícia volta à capital, o Exército reduz sua presença e seis jornalistas da Al-Jazira são presos temporariamente.

– 1 de fevereiro
Pouco antes da “marcha dos milhões”, o Exército anuncia que “reconhece as reivindicações legítimas do povo” e que “não usará força para reprimir protestos pacíficos”. Durante o dia, um milhão de pessoas se reuniram na Praça Tahrir, dando início ao maior protesto contra Mubarak desde o início do levante. De noite, Mubarak anuncia que não concorrerá nas eleições de setembro e afirma que, no resto de seu mandato, “responderá às demandas do povo”.

– 2 de fevereiro, quarta-feira
Exército pede o fim dos protestos, mas os manifestantes voltaram à Praça Tahrir no fim da manhã para continuar os pedidos pela renúncia de Mubarak. Manifestantes simpáticos ao presidente também se aglomeraram no centro do Cairo e em pouco tempo iniciam-se os confrontos. Os grupos atiraram paus e pedras uns nos outros e há relatos de que os partidários de Mubarak invadiram a praça montados em camelos e cavalos. Horas depois do início dos combates, o Exército interferiu. Os quartos de repórteres estrangeiros, inclusive o do Estado, são invadidos pela polícia, que buscava câmeras.

– 5 de fevereiro
Após 12 dias de protestos, a alta cúpula do Partido Nacional Democrático (PND), legenda governista do Egito, renunciou. Entre os dirigentes que caíram estão Gamal Mubarak, filho do presidente Hosni Mubarak, e Safwat el-Sharif, secretário-geral do partido. Conhecido por manter boas relações com a oposição, Hossam Badrawi assumirá o posto de El-Sharif. De acordo com a TV estatal, houve seis mudanças na liderança. Por sua vez, o primeiro-ministro, Ahmed Shafiq, disse que a estabilidade está sendo retomada no país, e se mostrou confiante de que haverá uma solução para a crise sem a saída imediata de Mubarak.

– 6 de fevereiro
Governo se reúne para negociar com a oposição e oferece uma série de concessões, como o fim do estado de exceção, a formação de um comitê para reformar a Constituição, a libertação de prisioneiros políticos e fim das restrições à imprensa. Os opositores, porém, saíram descontentes com as concessões e seguiram pedindo a renúncia de Mubarak e a dissolução do Parlamento.

– 10 de fevereiro
Apesar dos rumores sobre sua queda, Mubarak anuncia que passou seus poderes efetivos ao vice-presidente, Omar Suleiman, que agora tem o poder sobre os militares. A multidão, que esperava ouvir a renúncia do ditador, se enfurece e ruma em direção ao Palácio Presidencial e à sede da televisão estatal. Opositores dizem que a revolução egípcia começou.

– 11 de fevereiro
O vice-presidente Omar Suleiman vai à televisão estatal e anuncia: “O presidente Hosni Mubarak deixa a presidência e delega os assuntos do Estado ao Conselho Supremo das Forças Armadas”. A ditadura de 30 anos de Mubarak termina. A oposição e os egípcios nas ruas comemoram.

– 13 de fevereiro Militares dissolvem o Parlamento e suspendem Constituição.

– 15 de fevereiro
A Junta Militar nomeia uma comissão de juristas para conduzir a reforma na Constituição do país. O órgão tem o prazo de dez dias para preparar emendas à Carta que serão submetidas a referendo.

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