Angra planeja obras para ter plano de fuga pelo mar

O complexo nuclear em Angra dos Reis: um dos novos cais em estudo ficaria do lado esquerdo, na Praia Brava, onde estão situadas as residências dos funcionários

Além de anunciar a contratação de uma consultoria externa para reavaliar a segurança das encostas no entorno de Angra 1 e 2 , que já passam por um monitoramento constante, a direção da Eletronuclear, que opera as usinas, já tem em mãos um estudo para a construção de dois píeres nas imediações da central, visando a reforçar o plano de retirada dos moradores da cidade, em caso de acidente ou outro evento não esperado. Um cais seria instalado na Baía da Ribeira, do lado direito das usinas, do ponto de vista do mar, e o outro na Praia Brava, do lado esquerdo, onde ficam as residências dos funcionários.

Apesar de não ser responsabilidade da empresa, criar uma alternativa de retirada das pessoas por mar é especialmente importante no caso de um deslizamento na Rio-Santos. Nos últimos anos, a rodovia, que passa pelo complexo de Angra, sofreu inúmeros escorregamentos. Uma grande avalanche em 1985 aconteceu na face oposta da montanha onde, do outro lado, fica Angra 1. Na ocasião, o Laboratório de Radioecologia foi soterrado e um pequeno cais com barcos de funcionários, destruído. A saída de água da usina, usada no processo de refrigeração, quase foi atingida. A vulnerabilidade da região, em razão de suas características naturais, sempre foi uma preocupação da Eletronuclear, que, em 2002, chegou a fazer a recuperação de 60 quilômetros da estrada, quase simultaneamente ao início da operação de Angra 2.

Como noticiou domingo O GLOBO, a crise nuclear no Japão – após o acidente provocado por um terremoto e uma tsunami jamais vistos no país – e as chuvas de janeiro na Região Serrana do Rio levaram a Eletronuclear a buscar uma segunda opinião sobre a situação geológica das encostas de seu terreno . Desde que as instalações começaram a ser utilizadas na Praia de Itaorna, onde estão as duas usinas e uma terceira em fase final de construção, oito pontos considerados críticos são permanentemente vigiados. Agora, uma comissão, juntamente com consultores independentes, vai checar de novo todas as obras e medidas de contenção já adotadas.

Os píeres devem permitir a atracação de barcos mais robustos para o transporte de um número maior de pessoas. Para isso, as áreas definidas para receber as novas estruturas precisam passar por um processo de dragagem, para aumentar o calado naquele ponto. A prefeitura de Angra dos Reis calcula que cerca de 20 mil pessoas morem nas áreas que ficariam vulneráveis em caso de emergência nuclear.

As características geológicas dos morros da região, somadas à lentidão da ação governamental nas obras de conservação e duplicação das vias de acesso às usinas, tornam ainda mais urgente a discussão sobre o pagamento de royalties da energia nuclear. Os recursos funcionariam como uma compensação financeira para o estado, pelo fato de sediar as usinas, e seriam usados para financiar programas de segurança, que envolvessem prevenção e o plano de evacuação.

Além das intervenções de rotina na Rio-Santos, a rodovia teve 26 quilômetros duplicados, no trecho entre Itaguaí e Itacuruçá – uma obra de R$ 245 milhões que levou quatro anos e ficou pronta em dezembro do ano passado. Na ocasião, o então ministro dos Transportes, Paulo Sérgio Passos, prometeu fazer o mesmo nos 160 quilômetros entre Mangaratiba e a divisa entre os estados de Rio e São Paulo, com recursos do PAC 2. Além da Rio-Santos, as duas outras opções de evacuação na região precisam passar por obras: a Paraty-Cunha e a estrada entre Angra e Barra Mansa (RJ-155).

– Na Rio-Santos, as encostas são muito deslizantes, isso é uma característica da Serra do Mar. Os especialistas dizem que o próprio corte feito para a construção da estrada é problemático. E, no caso de um acidente nas usinas, não há alternativas além dela. As outras duas opções seriam a estrada entre Angra e Barra Mansa, que está em estado precário, e a Paraty-Cunha. Se cair metade da chuva que caiu na Região Serrana (em janeiro), aquilo vira uma ratoeira nuclear – afirma o secretário estadual do Ambiente, Carlos Minc.

Os deslizamentos na região são frequentes, especialmente na época de chuvas. Eles ocorrem devido à estrutura geológica da área: como a faixa de terra entre a pedra e a vegetação nos morros é pequena, pode-se formar uma camada de água entre a pedra e a terra, o que provoca o desmoronamento.

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