Muçulmanos exigem transição no Egito

A Irmandade Muçulmana qualificou nesta quarta-feira de “monólogo” o diálogo que começou com o regime do ditador egípcio, Hosni Mubarak, junto a outros grupos políticos, e exigiu uma transição rápida no país.

“Rechaçamos o monólogo e o que queremos é um diálogo. Queremos soluções em dias e não em meses”, afirmou um dos porta-vozes da organização, Mohamed Mursi, em uma entrevista coletiva realizada no Cairo.

Mursi se referia ao diálogo iniciado no último domingo entre grupos de oposição –entre eles a Irmandade Muçulmana– com o vice-presidente do país, Omar Suleiman, no qual foram negociadas reformas políticas.

Outro porta-voz do grupo, Isam al Arian, rechaçou o acordo anunciado por Suleiman após o encontro, que determinou a formação de uma comissão para introduzir reformas constitucionais, outra para supervisionar o processo de transferência de poder e uma terceira para investigar os eventos ocorridos durante os protestos antigoverno, que desde o último dia 25 pedem a queda de Mubarak.

Mohammed Abed/AFP
Egípcios seguram bandeira gigante na praça Tahrir; opositores ignoram alerta do governo e mantêm protestos
Egípcios seguram bandeira gigante na praça Tahrir; opositores ignoram alerta do governo e mantêm protestos

Já Saad al Katatni, um dos dirigentes da Irmandade, afirmou que a segunda etapa do diálogo “começará nos próximos dias”, sem especificar datar.

A Irmandade Muçulmana, o principal grupo de oposição no Egito, reforçou ainda seu apoio aos protestos populares no país. “O povo mantém sua postura e nós queremos estar por trás dessa postura e protegê-la”, disse Arian.

16º DIA

Os manifestantes e grupos de oposição lotaram por mais um dia a praça Tahrir, no centro do Egito, enfurecidos com o alerta da véspera do vice-presidente Omar Suleiman de que, se não houver negociações, um golpe pode ocorrer, causando ainda mais caos.

O alerta de Suleiman pode atrapalhar os seus esforços, apoiados pelos Estados Unidos, de negociar reformas democráticas com a oposição e encerrar os protestos que se prolongam pelo 16º dia consecutivo. Até esta quarta-feira, a oposição rejeitou as ofertas de reforma constitucional de Suleiman e mantém a exigência de que o ditador Hosni Mubarak saia imediatamente do poder. A oferta do governo é que ele permaneça até setembro, quando serão realizadas eleições.

Os manifestantes temem que o regime manipulará as conversas e conduzirá apenas reformas superficiais –então eles insistem que entrarão nas negociações efetivamente quando Mubarak, há 30 anos no poder, sair.

Milhares de manifestantes cantando “nós não vamos sair enquanto ele não sair” acamparam durante a noite em Tahrir, em barracas improvisadas com plásticos e cobertores, para se proteger do clima frio. Muitos deles estão dormindo sob tanques que cercam a praça.

Suleiman rejeitou, em entrevista à imprensa oficial e independente egípcia na noite desta terça-feira, a saída imediata de Mubarak ou qualquer “fim ao regime”. “Nós não podemos sustentar isso por muito tempo”, disse, sobre os protestos em Tahrir. “Precisa haver um fim a esta crise assim que possível”.

O vice apelou ainda ao diálogo e disse que não quer lidar com a sociedade egípcia com “armas de polícia”, mas alertou que a alternativa ao diálogo é que aconteça um golpe “que significaria passos não calculados e perigosos, incluindo muitas irracionalidades”. A declaração foi vista como a sugestão da imposição da lei marcial, uma escalada dramática após violentos confrontos que deixaram mais de 150 mortos, segundo as agencias de notícias.

Osama Saraya, editor do jornal pró-governo “Al Ahram”, disse que Suleiman não quis dizer apenas um golpe militar, mas a tomada por outro Estado ou mesmo grupos islâmicos.

Hannibal Hanschke/Efe
Manifestantes antigoverno continuam na praça Tahrir, centro do Cairo, no 16º dia de protestos contra Mubarak
Manifestantes antigoverno continuam na praça Tahrir, centro do Cairo, no 16º dia de protestos contra Mubarak

Mas os manifestantes reagiram com preocupação. “Ele está ameaçando impor a lei marcial, o que significa que todo mundo na praça será esmagado”, disse
Abdul-Rahman Samir, porta-voz da coalizão com os cinco principais grupos de jovens por trás dos protestos. “Mas o que ele fará com o resto dos 70 milhões de egípcios que nos seguirão depois disso?”

Ayman Nour, ex-candidato presidencial e líder do opositor Partido Ghad, disse que Suleiman deixa apenas uma opção, o golpe, “já que o diálogo não é real e aqueles que estão falando são Suleiman e Suleiman”.

No fim de semana, Suleiman participou de uma rodada de negociações com a oposição amplamente divulgada –incluindo os representantes dos ativistas, a Irmandade Muçulmana e partidos da oposição sancionados pelo governo –que não tiveram nenhum papel nos protestos.

Mas os jovens ativistas disseram que a sessão pareceu ser uma tentativa de dividir suas fileiras e eles disseram que não confiam nas promessas de Suleiman de que o regime vai realizar reformas constitucionais para trazer uma maior democracia.

O vice-presidente americano, Joe Biden, conversou por telefone com Suleiman, dizendo que Washington quer que o Egito revogue imediatamente as leis de emergência que dão amplos poderes às forças de segurança –uma das principais exigências dos manifestantes.

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