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Haitianos viajam de avião, ônibus e barco por emprego na Amazônia

Tabatinga, no Amazonas, é rota de entrada para imigrantes no Brasil. Sobreviventes de terremoto pagam até US$ 2,5 mil por trecho da viagem.

Venel conta que há muitos haitianos na casa (Foto: Luciana Rossetto/G1)
O haitiano Luis Venel diz que grupo foge de doenças e desemprego no Haiti; eles chegam a cidades do Acre e Amazonas com dinheiro emprestado e sem apoio governamental
(Foto: Luciana Rossetto)

Sentados na calçada em frente a uma casa simples em Tabatinga, no Amazonas, um grupo de haitianos com ar desanimado olha em silêncio para o horizonte. A maioria enfrenta o calor da tarde de domingo (13) em jejum, com sede e sono após uma noite mal dormida. O desejo de todos é conseguir algum dinheiro para ir a Manaus e, depois, arrumar trabalho para mandar dinheiro à família.

Os haitianos começaram a chegar a Tabatinga, cidade na fronteira da Colômbia e do Peru, em novembro, depois de uma viagem de até dois meses por países da América Central e do Sul. Os imigrantes fogem da devastação provocada pelo terremoto ocorrido em 12 de janeiro de 2010 no Haiti.

Para o governo brasileiro, eles não são considerados refugiados, segundo informação do Comitê Nacional para Refugiados (Conare), do Ministério da Justiça. Ainda de acordo com o Conare, a permanência deles em território brasileiro será analisada pelo Conselho Nacional de Imigração, do Ministério do Trabalho.

A Secretaria da Saúde do Amazonas estima que 600 já tenham entrado no país pela cidade de Tabatinga. O padre Gonzalo Franco disse que 294 permaneciam no município conforme uma contagem feita no dia 6 de fevereiro.

Além de Tabatinga, o município de Assis Brasil, no Acre, é outra rota de entrada para os haitianos, que depois passam a se concentrar em Brasiléia, no mesmo estado. De acordo com dados da Secretaria da Justiça e Direitos Humanos do estado, 109 haitianos tinham sido cadastrados até 21 de janeiro e outros 50 já estavam por lá, mas não tinham sido identificados.

Michelet (no centro) pediu dinheiro emprestado para viajar (Foto: Luciana Rossetto/G1)
Michelet (no centro) pediu dinheiro emprestado
para viajar (Foto: Luciana Rossetto)

Viagem por até R$ 2,5 mil
Conforme o relato da maioria dos haitianos, a viagem começa de ônibus do Haiti para Santo Domingo, na República Dominicana. Lá, eles contratam agências que cobram até US$ 2,5 mil para comprar as passagens de avião primeiro para a Cidade do Panamá, no Panamá, e depois até Quito, no Equador. Quase todos passam alguns dias em Quito, até seguir de ônibus para Lima, no Peru. Depois de mais dias na capital peruana, seguem de ônibus para Iquitos, perto da fronteira com o Brasil, onde conseguem um barco para chegar a Tabatinga.

Quando entram na cidade, são acolhidos pela população e pela Igreja Católica e encaminhados para casas cedidas por moradores para abrigá-los. Alguns conseguem reunir pequenos grupos para pagar o aluguel de quartos. Nem mesmo quem está nas casas cedidas sabe ao certo o número de moradores, que aumenta em proporção muito maior à saída deles.

“Já contei mais de cem outro dia, mas ontem tinha 93. Sim, é muita gente numa casa. Mas lá [no Haiti] não dá para ficar. O terremoto se foi e agora são doenças que estão matando a nossa gente. Aqui não está bom, mas temos um teto para viver. Lá, quase todos estão nas barracas e todo mundo sabe que vai ser difícil arrumar outra casa”, afirma, Luis Venel, de 33 anos, que chegou no dia 6 de janeiro após pagar US$ 2,5 mil para uma agência e não conseguiu nenhum trabalho.

“O único problema aqui é quando chove, porque cai muita água lá dentro. Nossa cozinha fica do lado de fora e fazemos alguma coisa quando alguém nos traz comida. O padre [Gonzalo Franco] também nos dá muitas coisas, mas é tanta gente que não é suficiente”, diz o haitiano, que deixou para trás mãe, pai e uma filha de 2 anos.

Sentados na calçada junto a Venel estão Michelet Pierre, de 26 anos, Jen Japarodel, de 32, e Volmy Celina, de 26. Os três já se conheciam no Haiti e decidiram pedir dinheiro emprestado para amigos para vir ao país. Eles também contrataram uma agência na República Dominicana, que cobrou US$ 2,4 mil de cada um.

“Com a agência conseguimos os documentos e o passaporte. É bem difícil sem a ajuda deles. Quando a gente ganhar dinheiro, nós vamos pagar esse empréstimo. Nossa família e amigos estão contando com a gente aqui”, afirmou Pierre, que deixou a mãe e sete irmãos no Haiti. Outros cinco morreram no terremoto.

Vagas na construção civil
Assim como Venel, os três amigos também estão ansiosos para conseguir R$ 170 para a passagem de barco até Manaus. Eles acreditam que lá terão mais sorte na busca por um trabalho na construção civil, setor em que todos garantem ter muita experiência.

Além da falta do dinheiro da passagem, os haitianos afirmam que aguardam em Tabatinga a entrega do protocolo do pedido de refúgio feito por eles. “O povo de Tabatinga é muito bom, mas aqui não há trabalho. Estamos perdendo tempo aqui. Precisamos ir para Manaus, porque nós fazemos todo tipo de trabalho e lá teremos chance de mostrar nossa experiência. Se lá não tiver, vamos para outros lugares. Vamos parar onde tem trabalho”, afirma Japarodel.

Situação será analisada
O coordenador-geral do Comitê Nacional para Refugiados (Conare), Renato Zerbini, esteve em janeiro na região para analisar a situação dos haitianos. De acordo com a assessoria do órgão, os imigrantes não estão em situação de refúgio. Somente são refugiados os imigrantes perseguidos por causa da etnia ou por problemas políticos. No caso, os haitianos estariam fugindo somente da miséria e das condições de vida ruins do Haiti.

Ainda segundo o Conare, do Ministério da Justiça, o processo para a permanência dos haitianos no Brasil será analisado pelo Conselho Nacional de Imigração, do Ministério do Trabalho.

A Polícia Federal informou, neste domingo (13), que mesmo fora dos critérios os haitianos podem entrar com o pedido de refúgio na fronteira. Porém, o pedido e a entrega do protocolo não garantem a permanência deles no país.

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