Encontrado Dinossauro no Brasil

Pesquisadores do Museu de Zoologia da USP descobriram, em 2007, uma nova espécie brasileira de titanossauro, só revelada agora.

Jefferson Silva observa, curioso, os cientistas do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo arrebentarem uma corcova de terra próxima de sua casa, na região rural de Coração de Jesus, norte de Minas Gerais. O trabalho começa bruto, à base de enxadas e picaretas. Depois vêm os martelinhos, pincéis e outras ferramentas mais delicadas. Pouco a pouco, em meio à poeira, o que parecia ser só um bloco de pedras soterrado e sem graça começa a tomar o contorno de um osso. Um grande osso.

“Quando a gente era pequeno, brincava que aqui era o campo dos dinossauros”, relembra Silva, de 17 anos, com um sorriso tímido nos lábios e sem parecer se importar com o calor de 40° C que castiga os forasteiros da universidade paulista. “Nunca imaginei que pudesse ser verdade.”

Ele conta que sempre viu pedaços de ossos por ali. Achava que eram de vaca ou de algum outro bicho da roça – nunca de um dinossauro de verdade. Mas eram exatamente isso. Muitos milhões de anos atrás, os ossos que os cientistas parecem esculpir da terra pertenceram a um titanossauro de 13 metros de comprimento e 10 toneladas de carne e osso. Um réptil gigante e pescoçudo que, segundo os pesquisadores, morreu à beira de uma lagoa e teve sua carcaça devorada antes de ser soterrado por um deslizamento de lama, cerca de 120 milhões de anos atrás.
O “campo dos dinossauros” que Silva pensava existir apenas em sua imaginação era a realidade da paisagem naquela época, em meados do período Cretáceo. Dinossauros de todos os tipos, grandes e pequenos, carnívoros e herbívoros, caminhavam por aquelas bandas no interior de Minas. E alguns deles, felizmente, tiveram seus restos preservados para contar a história.

Os primeiros relatos de que havia fósseis na região começaram a ecoar pelo sertão em maio de 2005, quando José Adão Pereira de Souza, um dos moradores mais folclóricos de Coração de Jesus – conhecido como Zezinho -, resolveu prestar atenção em alguns daqueles cacos estranhos de osso que pareciam aflorar de um barranco próximo.

Inicialmente, tal qual o garoto Silva, todos imaginavam ser ossos de vaca. Zezinho, porém, notou que os cacos eram pesados demais. “Pareciam pedra”, relembra ele. “Osso de gado costuma ser mais leve.”
Curioso, levou um fragmento para casa – desencadeando, assim, uma sequência inusitada de eventos e coincidências que levaria, três anos mais tarde, a uma das descobertas mais incríveis da paleontologia brasileira.

Zezinho ficou com o osso em casa por algumas semanas, sem dar muita importância. Até que, um dia, um oficial de Justiça bateu à sua porta para entregar um documento. Ele viu o osso e perguntou do que se tratava. Zezinho não sabia. De volta à cidade, o oficial comentou sobre o caso com outra figura folclórica da região: Ubirajara Alves Macedo, o Bira. Nascido e criado em Coração de Jesus, Bira é a enciclopédia viva da cidade. Se alguém pudesse descobrir de onde vinha aquele osso, esse alguém era ele.

Bira não perdeu tempo. Foi até a casa de Zezinho, pegou o caco emprestado e começou a ligar para todas as universidades mineiras que conhecia, pedindo que algum pesquisador fosse dar uma olhada. Ninguém foi. Só quem se interessou pela história foi uma rede de televisão local, que fez uma reportagem e levou um espeleólogo a tiracolo. O espeleólogo (um especialista em cavernas) foi até o local onde Zezinho havia coletado o fragmento, cavou um pouco mais e descobriu uma costela encravada na rocha com mais de 1 metro de comprimento. Disse que era um osso de preguiça-gigante.
Bira não se convenceu. “Meu pai sempre dizia que Coração de Jesus era terra de dinossauros, que um dia a gente acharia um bicho desses por aqui.” Determinado a cumprir a profecia, ele continuou a ligar para universidades. De novo, ninguém foi.

O elo perdido

Até que a história foi bater nos ouvidos de Márcio Vieira Nobre, um jovem biólogo local, cujo pai era muito amigo do pai de Bira. No fim de 2005, ele estava de férias da faculdade quando soube, pela namorada, que havia um fóssil misterioso na cidade. Nobre também não perdeu tempo. Foi até a casa de Bira, examinou o osso e começou também a ligar para universidades pedindo ajuda. Ninguém apareceu.
Foi então que Nobre se lembrou de um sujeito no Orkut que dizia trabalhar com escavações – um baixinho troncudo que usava chapéu de Indiana Jones e atendia pelo apelido de Wolverine. Os dois não se conheciam, mas compartilhavam um hobby que acabou se tornando o “elo perdido” entre o dinossauro de Coração de Jesus e os pesquisadores da USP: ambos tinham uma caminhonete Rural, da década de 70, e por isso pertenciam a uma mesma comunidade no Orkut.

“Ele viu uma foto minha no Orkut de chapéu e pensou ‘Esse cara tem pinta de paleontólogo’”, brinca Ricardo Domingues, o Wolverine – que, na verdade, é geólogo, mas trabalha com projetos de paleontologia no Museu de Zoologia da USP. Em setembro de 2005, ele recebeu uma mensagem de Nobre, contando sobre o fóssil de Coração de Jesus. Wolverine, então, contou a história para o professor Hussam Zaher, curador de herpetologia e paleontologia do museu.

Zaher ligou para Nobre. Quando soube que a tal costela tinha mais de 1 metro, colocou a equipe no carro e rumou para Minas. “Só podia ser dinossauro”, apostava Zaher.

No dia 14 de setembro de 2005, Zaher chegou a Coração de Jesus. Encontrou com Nobre, que o apresentou a Bira, que os apresentou a Zezinho, que os levou até o barranco onde estava a costela encravada. Puseram-se a cavar e, não demorou muito, descobriram outros ossos fossilizados. E não era preguiça-gigante, não. Era dinossauro. Dos grandes. “Foi muito emocionante. Nunca imaginei que teria contato com uma coisa dessas”, relembra Nobre. Entre outubro e dezembro de 2005, os pesquisadores fizeram três expedições ao local, que ficou conhecido como Ponto 1. Desenterraram outras costelas, vértebras e um úmero de mais de 1 metro.

Mas essa não é a descoberta principal.

A descoberta mais importante – um crânio completo de titanossauro – foi feita a 2 quilômetros dali, no chamado Ponto 4, onde o garoto Silva costumava brincar de “campo dos dinossauros”, e que os cientistas só começaram a escavar em 2007. “Desde então não conseguimos mais sair daqui”, conta, entre uma enxadada e outra, o paleontólogo Alberto Carvalho, responsável pelos trabalhos de escavação e preparação do fóssil.

A última expedição de coleta foi em março deste ano. Entre os Pontos 1 e 4, os pesquisadores já coletaram uma grande quantidade de fósseis, que podem representar até quatro animais diferentes. E ainda há muito o que explorar na região. “Se continuarem cavando, vão achar mais coisa, com certeza”, profetiza Zezinho, montado em seu cavalo.

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