A síndrome do não convencional

Reunir a família para ir ao cinema em uma típica sexta-feira à noite pode estar se tornando uma verdadeira batalha, principalmente se queremos filmes que apresentem uma mensagem positiva. Na verdade, os filmes exibidos nas grandes telas acabaram virando uma opção nem sempre tão boa para os dias de lazer da família. Na hora de escolher, vale a pena ler o script antes, para escolher bem. Com a evolução da sociedade, veio a evolução do cinema e, hoje, podemos dizer que, mais do que nunca, os meios de comunicação de massa estão formando novos conceitos e divulgando idéias que, muitas vezes, são questionáveis.

O que era nobre um dia, hoje chamamos de ultrapassado, o que era moda é colocado como brega. A síndrome do não convencional chegou a Hollywood à velocidade da luz. O liberalismo vem imperando na sociedade considerada pós-moderna. Hollywood abraçou a idéia do não convencional com a aceitação dos próprios atores e atrizes e com alguns deles, inclusive, levando o que aprenderam nos sets de gravação para sua vida pessoal. As mensagens divulgadas nos filmes hollywoodianos apresentam valores morais, sociais e religiosos que, muitas vezes, são questionáveis.

As estratégias para fugir da síndrome do não convencional começa logo nos traillers que aparecem na televisão. Nas bilheterias somos informados, ou melhor, bombardeados, com vários códigos que restringem os filmes em faixas etárias de acordo com seu conteúdo. Existem três principais associações que classificam os filmes nos EUA: CARA (Classification and Rating Association), MPAA (Motion Picture Association of America) e NATO (National Association of Theather Owners). De acordo com essas três instituições os filmes foram separados em cinco classificações: G (General Auditions – todas as idades), PG (Parental Guidance Sugested – algum conteúdo do filme pode não ser aconselhável para crianças), PG13 (Parents Strongly Cautioned – algum conteúdo do filme não é aconselhável para menores de 13 anos), R (Restricted – menores de 17 anos apenas com pais ou acompanhantes) e NC-17 (No one 17 and under admitted – proibido para menores de 17 anos).

Para se ter uma idéia, somente em fevereiro, teremos aproximadamente 50 filmes em cartaz, dos quais, apenas um está indicado para todas as audiências. Nem a Chapéuzinho Vermelho escapou dessa vez, com a versão da história clássica que agora ganhou outros três pontos de vista, o da vovó, do lenhador e agora até o lobo pôde se explicar! O único que conseguiu escapar e passou pelas restrições cinematográficas foi Curious George, um filme que conta a história de um curioso macaquinho que vai parar na cidade grande por causa da sua obsessão em conhecer coisas novas, sendo liberado para todas as idades. Em nove longas-metragens os pais são aconselhados a estarem com os filhos; 26 filmes não são aconselhados para menores de 13 anos e, em 14 longas, os menores de 17 anos só podem assistir acompanhados dos pais ou responsáveis.

A indústria da sétima arte parece que começou a deixar os temas familiares de lado e migrar para assuntos mais polêmicos e restritos. Nunca, em nenhum momento da história do cinema, tantos filmes tratando de homossexualismo de forma direta ou indireta, foram retratados nas telas do cinema como nos últimos 10 anos. Os filmes do gênero não convencional vêm ganhando o prestígio e o respeito não apenas de críticos, mas também do Globo de Ouro e do próprio Oscar.

O que antes era considerado pouco recomendável para a telona, hoje é chamado de arte. No livro, Os Bastidores de Hollywood, o autor americano Willian Man descreve como o homossexualismo tomou conta do império cinematográfico. Segundo o autor, no começo, a nova idéia foi vista com maus olhos, mas após alguns anos, muitos atores, atrizes e até as pessoas que trabalhavam atrás das câmeras aderiram à nova moda. A Academia de Cinema resolveu dar atenção especial para os filmes que apresentam um romance com pessoas do mesmo sexo. Desde 1996 foram 19 filmes que concorreram, desde indicações para melhor ator, atriz, trilha sonora, direção de figurino, fotografia, até a de melhor filme. O ano campeão de indicações foi 1997, onde tivemos As Good as It Gets (Melhor É Impossível), In & Out (Será Que Ele É?), My Best Friend Wedding (O Casamento do Meu Melhor Amigo).

Embora não tenha sido anunciado nenhum romance homossexual para 2006 ou 2007, o público ainda suspira fundo com o último lançamento do gênero. O filme Brokeback Mountain (Os Segredos de Brokeback Mountain) não está apenas causando sucesso nas telas, mas também muita polêmica. Vencedor do maior prêmio de críticos dos EUA, Brokeback Mountain foi o vencedor da noite no Globo de Ouro e recebeu várias indicações ao Oscar, inclusive de melhor filme. A história se passa nas montanhas de Brokeback, em uma cidade do interior dos EUA, onde dois cowboys apaixonam-se um pelo outro. Após anos separados os dois se reencontram, porém agora, casados e com filhos. A partir do encontro o romance entre os dois se intensifica e o segredo é mantido durante anos. O filme, que vem causando grande polêmica nos EUA, é dirigido por Ang Lee, estrelando Heath Ledger, Jake Gyllenhaal e Michelle Williams, e está sendo cotado como vencedor nas categorias de direção, fotografia e atriz coadjuvante. Os críticos têm aclamado a performance de Brokeback Mountain e chamado o filme de “uma perfeita produção”. Apesar de toda a polêmica que está causando entre o público, é quase certo de que o filme de Ang Lee será o grande vencedor do Oscar deste ano.

Embora os filmes sobre homossexualismo tenham crescido em Hollywood, os produtores e cineastas já perceberam que o mercado evangélico também representa, hoje, um dos maiores consumidores de bilheteria. Resposta a esta afirmação foi o filme The Passion of Christ (A Paixão de Cristo), dirigido por Mel Gibson, que arrecadou mais de 212 milhões de dólares nas primeiras semanas, batendo o recorde até mesmo de Return of The King (O Retorno do Rei), segundo filme da trilogia Lord of The Rings (O Senhor dos Anéis), que foi sucesso de bilheteria.

De olho no mesmo público que a 20th Century Fox, a Disney lançou em dezembro a versão para o cinema do livro The Chronicles of Narnia (As Crônicas de Nárnia), do escritor cristão de literatura infantil C. S. Lewis. O primeiro filme, parte da série dos sete livros, já é a maior bilheteria de todos os tempos, passando Toy Story que, até então, era a maior bilheteria da Disney e que arrecadou 357 milhões de dólares.

O próximo lançamento com perfil cristão nos cinemas americanos será o filme The Second Chance (Segunda Chance), longametragem estrelado pelo cantor gospel Michael W. Smith, o que deverá atrair muitos cristãos para o cinema. O filme tem estréia marcada para o dia 17 de fevereiro. Em um ano em que as arrecadações foram consideradas desastrosas, as distribuidoras procuram mercados mais lucrativos e o público cristão se revela um bom consumidor. A previsão é de que The Second Chance arrecade também um bom faturamento na venda de cd’s, já que toda trilha sonora do filme é composta por músicas cristãs.

Ainda é cedo para afirmar se Hollywood perdeu a fé ou se está descobrindo um novo mercado para explorar, mas o certo é que a resposta do público marca a diretriz adotada pelas grandes companhias de cinema. Uma nova iniciativa que apresenta um tema religioso é o lançamento do filme The Da Vinci Code (O Código de Da Vinci), baseado no polêmico livro de Dan Brown, que tem sua versão lançada para o cinema, com estréia prevista para 19 de maio. O livro, que coloca em discussão a divindade de Cristo, chega às telas do cinema para desafiar as produções direcionadas ao público cristão. O filme conta a história de Cristo com uma visão distorcida e totalmente baseada em evangelhos gnósticos, livros que não tiveram sua autenticidade comprovada e que negam a divindade de Cristo.

Hollywood também achou um caminho lucrativo no misterioso mundo da magia e bruxaria. O fenômeno Harry Potter conquistou crianças de todas as partes do mundo. A soma das bilheterias dos quatro filmes e as vendas de souveniers, cds e livros já soma mais de 1 bilhão de dólares. Considerado um dos filmes mais lucrativos de todos os tempos, Harry Potter promete ficar na vida das pessoas por mais seis anos, previsão dada pela Warner Bross para o lançamento do último filme. A série conta sete histórias onde o aprendiz de bruxo e seus amigos descobrem, por meio da magia e de encantos, aventuras e problemas em Hogwarts, uma escola para bruxos.

Com ou sem magia, o sucesso do bruxo mais famoso da atualidade levou as crianças a ler os livros da série. Os harry maníacos fizeram filas em 2005 nas livrarias para comprar o sexto livro da escritora J. K. Rooling, que já é a mulher mais rica da Inglaterra. Segundo uma pesquisa feita pela revista U.S. News, três em cada quatro crianças de 11 a 13 anos já leram pelo menos um livro da série Harry Potter. No Reino Unido, 59% dos jovens de até 17 anos disse nunca ter lido por diversão antes de Potter, porém outra pesquisa mostra que após o lançamento do primeiro filme da série, a procura por literatura que se refere ou ensina magias e feitiços aumentou quase 65% entre os adolescentes de 12 a 22 anos de idade.

Em contrapartida, os famosos blockbusters de suspense do final dos anos 90 parecem não fazer o mesmo sucesso hoje em dia. O público jovem, maioria dos consumidores de filmes de suspense, está achando os filmes muito fracos e evita longas do gênero. O que realmente eles estão buscando são os famosos Marvel’s. Os super-heróis que sairam dos quadrinhos e foram para as telas dos cinemas parecem agradar aos jovens de hoje, nem que seja para, no final, criticarem o filme e compará-lo com os quadrinhos. Embora Batman tenha sido um verdadeiro fracasso, Spider Man e X-Man recompensaram nas bilheterias. Em 2006 a atração ficará por conta de Wolverine e Super Man. A grande pergunta é se o primeiro homem voador ainda fará sucesso.

Diante de uma realidade virtual que apresenta mensagens e ideologias pós-modernas e que, direta ou indiretamente, afetam a sociedade de hoje, antes de ir ao cinema, vale a pena se informar. Para muita gente, filmes com temáticas anti-bíblicas e de vanguarda no que concerne a questões sociais não afetam em nada as pessoas. Podemos dizer que os filmes retratam a realidade social dos nossos tempos e apresentam conceitos que serão considerados normais na conduta social do futuro. As classificações pelas quais o filme passa antes de chegar às telas do cinema funcionam como um termômetro que mede o perfil do filme e direciona sobre o tipo de audiência a que se destina. Na verdade, muitas pessoas não prestam atenção nos ratings dos filmes, e permitem que seus filhos vejam filmes que não são recomendados para eles.

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